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Fazer política é criar laços

As recentes eleições autárquicas foram para muita gente o primeiro contacto com uma militância para lá das redes sociais, que ocupa os espaços das nossas cidades e que é baseada no trabalho coletivo. Importa refletir sobre a importância da presencialidade na intervenção política e o potencial que perdemos quando dela abdicamos.

O último ano e meio de pandemia e de isolamento social limitou a nossa capacidade de interação com os outros e obrigou-nos à adoção de ferramentas de trabalho e de comunicação à distância. Como não podia deixar de ser, também na política os impactos dessas alterações foram fortemente sentidos. As reuniões presenciais tornaram-se videoconferências no zoom, os cafés de discussão e conversa passaram para grupos de whatsapp, e as noitadas de afixação de cartazes converteram-se em partilhas instantâneas de publicações no instagram e facebook. Naturalmente, fomos tendo cada vez menos oportunidade de conhecer quem ao nosso lado luta.

Com a impessoalização das relações, o movimento social fica cada vez mais fragmentado e desconectado. O ativismo on-demand, que fazemos sem sair do sofá e com pessoas a quem nunca ouvimos a voz, torna-nos cada vez mais alienados das comunidades a que pertencemos, solitários sem disso dar conta. Essencialmente, sem a cola que nos une e potencializa a nossa intervenção: os laços de amizade e de camaradagem.

Mas a oportunidade que a campanha para as recentes eleições autárquicas nos deu para voltar a estar cara a cara com tantos e tantas companheiras de luta provou que só quebrando as câmaras de eco da internet e indo ao encontro das pessoas podemos criar movimento com sustentação e significado. É na rua que podemos compreender melhor a complexidade do tecido social, e procurar exemplos de solidariedade que são esboço do mundo diferente que queremos construir. É rodeados de camaradas que podemos construir identidades coletivas e dar asas à criatividade e à espontaneidade que reforçam as nossas lutas. É conversando que desenvolvemos consciência política.

Se por vezes há a tentação legitima de digitalizar processos coletivos porque isso nos permitirá chegar a mais gente, temos de compreender que se abdicamos totalmente da presencialidade acabamos por não chegar a ninguém. Não se muda o mundo nem sozinhos, nem à distância.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro Informático. Mestrando em Ciência Política. Bolseiro de investigação
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