Fazer cidade, mesmo nunca tendo estado em Bagdad

porMarisa Matias

23 de fevereiro 2010 - 0:00
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Os encontros fazem-se de pessoas, de lugares e de tempos. Quem hoje caminhar numa das Praças de Bruxelas não ficará indiferente ao anúncio de uma peça de teatro prestes a estrear: "Nunca estive em Bagdad", do dramaturgo português Abel Neves.

A peça conta-nos a conversa de um casal que em frente à televisão assiste às notícias da guerra do Iraque. Essas notícias acabam por confundir-se, inevitavelmente, com as suas vidas. Já foram várias as vezes que Abel Neves nos visitou em Coimbra através das suas peças, que contam vidas, concentram memórias. Veio-me, por isso, à memória as lutas que nos últimos anos se têm travado em Coimbra pelo direito à cultura.

É inevitável que, num contexto de crise económica e social profunda, nos digam que o exercício dos direitos acaba por ficar refém das necessidades imediatas. Em todos, sem excepção, se tem arrepiado caminho. Cada passo atrás representa um recuo de muitas e morosas conquistas. É por tudo isto que nunca é demais relembrar a importância da cultura e recuperar as causas que tanto nos fizeram mover nos últimos anos.

Continua por resolver o 'problema' da cultura em Coimbra e na região centro. Os poderes públicos demitiram-se de assumir essa função e tornaram-se elemento dificultador da criação artística, ao invés de a assumir como uma das suas principais mais-valias. Ao anterior vazio de ideias somou-se algo ainda pior: um silêncio profundo. O exercício da cidadania fica, por isso, cada vez mais limitado. Não há um plano para a cidade. Falta dignidade. A dignidade que todos e cada um de nós merece. Amesquinhar a cultura é amesquinhar-nos a todos. Falta o pão e falta o resto. Há sempre razões e essas são normalmente as da guerra. Neste caso, as da guerra dos direitos. Há que tratar de uns primeiro, os outros vêm depois. O problema é que, como bem ilustra o casal criado por Abel Neves, essa separação é irreal e fictícia. As vidas e os direitos privados estarão sempre reféns das conquistas ou das derrotas públicas.

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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