A falta de respeito

porLuís Branco

03 de outubro 2012 - 1:03
PARTILHAR

No ano passado, Passos dizia que Sócrates tinha perdido a confiança do país quando escondeu as medidas de austeridade que negociava em Bruxelas. Ao imitá-lo esta semana, mostra que já não tem nada a perder.

Em março de 2011, Sócrates negociava mais um PEC sem passar cartão à oposição ou à concertação social. Dizia Passos Coelho: «Considero isso de uma deslealdade e de uma falta de respeito pelo país, pelos portugueses, pelas instituições, suficientemente grave para pôr em causa a confiança que o país tem em quem o governa», ainda por cima tratando-se de medidas que impunham «sacrifícios graves à sociedade portuguesa para os próximos anos».



Ano e meio depois, é Passos Coelho que lidera o Governo e faz exatamente o mesmo com o pacote de novas medidas de austeridade que se segue à falhada alteração da Taxa Social Única. Vêm aí mais impostos que vão cortar os salários ao povo, e o povo recebe a notícia pela boca de Durão Barroso: o plano já teve o visto prévio e a aprovação de Bruxelas. O ministro das Finanças só vem comunicar as medidas à população mais de 48 horas depois.



O estado de desgraça do governo de Passos Coelho é de tal ordem que o primeiro-ministro já nem acha necessário mostrar algum respeito pelo povo que o elegeu nem pela República cujo Governo lidera. Por isso prefere faltar às comemorações do 5 de Outubro e rumar a Bratislava para ir a uma "Cimeira dos Amigos da Coesão", bem longe dos recados de Cavaco e das vaias populares.



Mas antes de apanhar o avião, ainda terá de ouvir no Parlamento a mesma censura que se ouviu nas ruas. Censurado por ter aumentado a dívida para uma proporção nunca vista. Censurado por obrigar o seu povo a emigrar para sobreviver. Censurado por garantir privilégios aos mais poderosos e sacrifícios aos mais fracos. Censurado por ter arrastado o país para uma espiral de recessão e desemprego sem fim à vista.

Luís Branco
Sobre o/a autor(a)

Luís Branco

Jornalista
Termos relacionados: