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A face oculta da cultura

Cada orçamento, cada desilusão. Não é uma questão a imputar apenas ao ministro responsável pela Cultura. Isto é mesmo uma questão civilizacional.

Não importa sol ou sombra/camarotes ou barreiras/toureamos ombro a ombro/as feras/Ninguém nos leva ao engano/toureamos mano a mano/só nos podem causar dano/espera.

José Carlos Ary dos Santos, 1972

 

Cada orçamento, cada desilusão. Não é uma questão a imputar apenas ao ministro responsável pela Cultura. Isto é mesmo uma questão civilizacional. Olhando para o orçamento miserável, longe, muito longe do necessário, conseguimos distinguir duas vertentes: por um lado, o orçamento é insuficiente para fazer face a todas as actividades abrangidas pela rubrica Cultura; por outro lado, é malévolo porque muitas das necessidades dos organismos tutelados pela Cultura, ficam absolutamente esmagados pelas luzes da ribalta apontadas à dança, ao teatro, ao cinema, aos museus, à política do livro, às bibliotecas ou aos arquivos. Aos espectáculos, às grandes mostras, aos grandes acontecimentos que se diluem na espuma dos dias, às manifestações com que enchem os nossos olhos, um brilho efémero que cede lugar à tristeza e desilusão mal se apagam as luzes. Nos esconsos das instituições nacionais – sejam eles os museus, os arquivos, as bibliotecas ou outras – a máquina que garante a sua operacionalidade e sobrevivência não é tida em conta, não interessa. É silenciosa, vive numa espécie de reclusão, atamanca-se e ninguém se interessa muito pelas infraestruturas. O ministério, então, não se preocupa mesmo nada, é como se não lhe competisse. Refiro-me exactamente aos equipamentos a gritarem por renovação (com especial incidência o equipamento informático de desactualização rapidíssima), aos circuitos eléctricos, à segurança do edifício, às simulações contra incêndios ou inundações ou tremores de terra, aos circuitos dentro de cada edifício que garantam uma fuga atempada e em segurança em caso de sinistro quer dos funcionários quer do público, à renovação dos sistemas eléctricos ou das canalizações, à limpeza e arrumação que deve prevalecer no interior de cada edifício sobretudo daqueles circuitos que os visitantes não vêem porque não os usam (a título de exemplo, mobiliário fora de uso a obstruir passagens, a impedir a abertura de portas ou o acesso a escadas de salvação), à preservação e conservação das colecções. Estas coisas sendo relativamente simples não caem do céu, têm de ser feitas e, ao sê-lo, exigem tempo e recursos humanos, logo, verbas. É muito positivo que as instituições como os museus, as bibliotecas ou os arquivos consigam preparar e montar exposições mas esta “galinha dos ovos de ouro” que garante algum retorno, um dia seca se as colecções não forem enriquecidas com novas aquisições e se estas, a somar às existentes, não forem preservadas e conservadas. Coisa simples? Oh meus senhores e minhas senhoras, simples para Vas. Exas. que ignoram mesmo do que falamos. Por mais simples que fossem, as actividades de comprar, preservar e conservar pressupõem conhecimento e verbas. E onde estão estas? Em parte alguma, desastre. As instituições da cultura estão mais próximo do abismo do que seria desejável. Até podem ter espaço, algumas até podem ter sido expandidas nos últimos anos mas precisam de pessoal qualificado (contribuindo decisivamente para aumentar e segurar os seus públicos), de garantir aquisições e renovar espaços, infraestruturas e equipamentos. Pelo facto de não ouvirmos as instituições e os seus dirigentes a queixarem-se, alguém acredita que faltam razões?

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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