A extrema-direita cresce onde o Estado não chega

porRodrigo Sousa

02 de junho 2025 - 15:58
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Vivemos num país centralizado, lento e cego às margens. Regionalizar não é um luxo – é a única resposta política capaz de devolver confiança, travar o abandono e impedir que a raiva vire ruptura.

As últimas eleições deixaram claro onde a extrema-direita cresceu mais: nos concelhos do interior, nos territórios onde o Estado deixou de ser presença e passou a ser ausência. Dizer que é só protesto ou voto de raiva é ignorar o abandono real. Quem vota assim não vota só com raiva. Vota com desespero. E desespera porque já não acredita em ninguém, nem em quem governa, nem em quem se apresenta como alternativa.

O problema do interior não se resolve com contas ou censos. Não é só económico. Nem apenas demográfico. É, acima de tudo, político. Profundamente político. E há décadas que exige uma resposta à altura: a regionalização. Palavra maldita nos corredores do poder, desacreditada como “mais uns tachos” ou “mais um degrau”. Mas é, na verdade, uma das poucas reformas com coragem bastante para travar o ciclo de abandono e ressentimento que alimenta o populismo.

Desenganou-se quem, nestas eleições, ainda acreditava que a extrema-direita se combatia com moralismos, escândalos ou discursos vazios. O caminho parece-me ser outro: enfrenta-se a direita radical com política direta – com instituições que escutem, representantes que respondam, e uma democracia que se faça de proximidade e confiança.

Vivemos num país centralizado, lento, surdo e cego às margens. Nos concelhos onde fecharam escolas e urgências, onde transportes públicos são um miragem e a única coisa que chega sempre a horas é a conta da luz, falar de democracia é risório. E depois perguntamos por que razão se vota em quem despreza essa mesma democracia. A resposta está em nós: a política simplesmente saiu de lá.

E tal não é apenas uma impressão melancólica vinda de quem quem já teve de sair do interior para viver, mas sim pura evidência científica. Estudos em vários países europeus mostram que sistemas políticos mais descentralizados, com instituições regionais fortes e legitimadas, são menos vulneráveis ao populismo. Quando as pessoas sabem a quem cobrar e onde participar, a desconfiança diminui, e com ela, a fúria que alimenta demagogos.

São elites que fingem ser povo, mas nunca apanharam um autocarro às seis da manhã para chegar ao hospital. São profissionais da política que vivem da raiva dos outros

Descentralizar não resolve tudo. Mas dissolve o silêncio imposto. Humaniza o poder. Dá escala às soluções e rosto às decisões. Países com autonomias regionais robustas têm melhor execução de fundos europeus e menor voto protesto. O Estado Espanhol, por exemplo, apesar das suas complexidades, conseguiu adaptar políticas públicas às realidades locais, fortalecendo a democracia. Onde o poder é visível e próximo, o discurso do “eles lá em cima” perde força.

É por isso que há quem evite este debate. Porque regionalizar significa redistribuir poder. E o poder não gosta de ser dividido. A extrema-direita, que diz ser contra as “elites de Lisboa”, é na verdade contra a regionalização porque implica perder o controlo centralizado. São elites que fingem ser povo, mas nunca apanharam um autocarro às seis da manhã para chegar ao hospital. São profissionais da política que vivem da raiva dos outros, mas nunca tiveram que encarar o abandono do interior. São barulhentos, mas mantêm-se confortavelmente longe do terreno.

Portugal é exceção entre os seus pares – um dos poucos países da Europa sem regiões administrativas, um dos mais centralizados, um dos mais desequilibrados. Este modelo serve alguns. Mas não serve o país. E cada vez mais vozes se levantam, cansadas de promessas, fartas de a palavra “interior” ser sinónimo de “esquecimento”.

Chegou o momento de dizer o óbvio: a regionalização não é um privilégio. É uma dívida histórica. É o mínimo que a democracia pode oferecer a quem nunca a sentiu como sua. É o muro que pode travar o avanço da fúria. Sim, tem custos. Mas mais custa esta inércia: perder investimentos estratégicos, perder gente, perder confiança. E depois ver crescer partidos que prometem vingança em vez de futuro.

Não há democracia sem território. Nem território sem voz. A regionalização não é mais Estado. É melhor Estado. É o antídoto contra o populismo onde ele mais cresce: nas margens. Se continuarmos a adiar esta reforma, não será só uma oportunidade perdida – será um país entregue à fratura. E quando isso acontecer, não digam que foi surpresa. Digam que foi medo. Ou pior: conveniência.

Artigo publicado em Público P3 a 29 de maio de 2025

Rodrigo Sousa
Sobre o/a autor(a)

Rodrigo Sousa

Estudante de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
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