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Hoje é mais preciso que nunca uma Esquerda que esteja onde tem de estar: do lado certo da luta contra austeridade, contra a barbárie e contra o atraso.

A relação entre a economia e a sociedade é uma relação eminentemente dialética. A forma como a sociedade se organiza influencia a forma como a economia se estrutura, e a forma como a economia se estrutura reflete-se na forma como se vive em sociedade. Os tempos que vivemos são frutos dessa relação: nos países onde foi aplicada, a estrutura económica das políticas de austeridade teve um reflexo em todas as esferas da organização da sociedade. Organizar uma resposta na sociedade para superar os dramas em que vivemos deve por isso também partir de uma disputa social e política da austeridade enquanto ideologia económica.

Ao contrário do que muita gente pensou, a crise de final de 2007 não resultou em nenhum mecanismo de controlo sobre a ganância do capital financeiro e da sua génese de especulação sobre a vida dos povos. A propaganda do G20 que ia acabar com os offshores ou das conferências europeias para o controlo de capitais, nada mais se revelou do que golpes de ilusionismo para responder e abafar a evidência do capitalismo nesta mudança de século: um projeto amplo, transnacional e totalizante de exploração dos povos no mundo. A essa resposta segue-se pouco tempo depois a chamada “crise das dívidas soberanas”. A culpa da crise passou do mercado e do capital, para o excesso de papel no Estado na economia e para a suposta forma como os povos trabalhadores viveram acima das suas possibilidades.

A partir desta crise, a estrutura da economia que agora assentou nas políticas de austeridade transformou de forma determinante a sociedade portuguesa. Depois de décadas de lutas por direitos sociais, esta estúpida ideia de austeridade como forma de organização da economia mostra-nos como em poucos anos a organização da sociedade pode regredir dezenas ou até centenas de anos.

Hoje voltamos a discutir esse imenso atraso civilizacional de regredir na escolaridade obrigatória, ao contrário de toda a evolução democrática que se tem verificado na generalidade dos países do mundo. Hoje discutimos cortes brutais à investigação científica e voltamos a ter responsáveis políticos que nos dizem que a investigação deve depender da sua utilidade à economia que existe. Hoje somos confrontados com uma proposta de refendo aos direitos humanos das crianças que procura uma cruzada conservadora, senil e homofóbica na sociedade. Hoje temos pela frente uma proposta de um Tratado Orçamental que nos impõe o fim da legitimidade das democracias nacionais, porque limita qualquer política contra cíclica e aprofunda as políticas de esvaziamento do Estado Social. Hoje os saudosistas dos 50 anos de atraso têm mais expressão do que gostaríamos e têm projetos para a nossa vida coletiva.

Hoje mais que nunca é preciso existir. O Governo e a direita em Portugal dizem que vamos ter uma “saída limpa” destes anos de resgate da democracia. Sabemos o que significa essa saída limpa: mais desempregados, menos salários e pensões mais baixas, menos Estado Social, mais precarização e desregulação laboral, mais privatizações e mais desigualdades. O plano é completamente totalizante. Todas as desigualdades económicas se agravaram, quem vive do seu trabalho está mais pobre.

Mas é também hoje que os trabalhadores da saúde 24 resistem, que os bolseiros de investigação saem à rua, que os trabalhadores do metro, da Carris, da TST ou do Aeroporto insistem na generosidade da greve como forma de defesa dos direitos coletivos e que os sindicados marcaram concentrações para Fevereiro. Mesmo neste momento de dificuldade e também de ataque à organização coletiva há quem insista em existir. Em construir nas lutas difíceis as forças necessárias para levantar um povo aprisionado. Nas próximas eleições europeias essa força terá de ter expressão, terá de juntar gente, ideias e combates. As alternativas que se constroem nas lutas do quotidiano devem animar a luta para vencer o capital financeiro. E ele está aí, mais forte que nunca, imposto num Tratado Orçamental que nos condenará à austeridade perpétua.

Hoje é mais preciso que nunca uma Esquerda que esteja onde tem de estar: do lado certo da luta contra austeridade, contra a barbárie e contra o atraso. Hoje, mais que nunca, é preciso a Esquerda existir.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e investigador
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