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Eu sou você amanhã

Um ano depois, a Grécia oferece-nos a imagem viva do que espera Portugal muito em breve.

Um anúncio que marcou a criativa publicidade brasileira dos anos 80 mostrava um sujeito bem vestido e penteado que olha para o espelho antes de sair de casa, à noite, e se vê com cara de ressaca, olheiras enormes, um trapo. Pergunta à imagem quem é, e ela responde: “Eu sou você, amanhã”. A propaganda era de uma marca de vodka, a Orloff, que pretendia convencer as pessoas que, se a tomassem hoje, evitavam aquela triste figura... amanhã. Ficou tão famoso, que cunhou o chamado “Efeito Orloff”, aplicado às mais variadas situações em que a história parece repetir-se.

Pois foi no “Efeito Orloff” que pensei ao observar a coincidência destes dias: na quarta-feira, um parlamento grego sitiado aprovou um selvático plano de austeridade que veio ampliar um igualmente selvático pacote votado há um ano e que não teve qualquer efeito para resolver a crise da dívida da Grécia. Os gregos de hoje estão mais pobres, mais revoltados, e o país mais endividado que há um ano. Esta quinta, o Parlamento português começa a debater um programa de governo que é em tudo semelhante ao plano grego. Olho para as imagens de Atenas, como se de um espelho se tratasse, e não posso deixar de pensar: “Eu [Portugal] sou você [a Grécia] amanhã”.

Passos Coelho e Paulo Portas querem-nos convencer que podemos voltar a ser os bons alunos da Europa e cumprir todas as exigências da troika – até em excesso! – para sermos o “bom exemplo” que “a Europa precisa”. Eles evitam olhar para o espelho, não querem ouvir falar da Grécia, e obstinam-se a convencer os portugueses que os sacrifícios que exigem hoje vão compensar amanhã. Pormenor: não dizem que os sacrifícios são só para os “suspeitos do costume”, os outros recebem só benesses. Segundo pormenor: não conseguem demonstrar como é que o plano da troika, que fracassou rotundamente na Grécia, pode dar certo em Portugal. Como é que o nosso país poderá jamais pagar a dívida se está em recessão, se essa recessão vai aprofundar-se, e se os juros continuam a subir nos mercados secundários, e os cobrados pelo FEEF e pelo FMI são altíssimos. Qualquer economista sério, que saiba fazer contas, pode confirmar que o plano da troika já nasceu morto. Mas os “economistas” que aparecem nos média pouco mais sabem dizer do que a vulgata neoliberal – nem sequer levada muito a sério, já que o programa do governo inclui um brutal aumento de impostos.

Pomposos, bem-vestidos, bem penteados e perfumados, os novos ministros e secretários de Estado vão olhar para o espelho antes de saírem de casa para se dirigirem ao debate na Assembleia da República. Correm o risco de se assustar com a imagem que o espelho lhes vai devolver.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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