A meio da torrente de "A mais estranha das criaturas", o poeta Nazim Hikmet diz: "tu não és um, tu não és cinco, tu és milhões". A mais estranha das criaturas, seja o escorpião ou a ovelha, é "mais estranha do que o peixe, que vive no mar sem saber o mar". Parece ser esta a imagem clara dos tempos que vivemos: somos todos parte de uma estranheza cujos contornos estão ainda pouco definidos.
A estranheza do futuro próximo e das escolhas que irão ser feitas em nosso nome, a estranheza de nós, criaturas estranhas, não sabermos em que mar vivemos, a estranheza das escolhas que nós devemos fazer ainda assim. Os tempos conturbados são, por tudo isto, uma oportunidade para transformar a estranheza em responsabilidade e opção.
Em tempos em que o que corre é que a escolha nos fugiu das mãos, contrariar a inevitabilidade torna-se necessidade. Para isso é importante que não deixemos perder a atenção. Como li há pouco tempo nas palavras de Gonçalo M. Tavares só o viajante que não se esquece de levar a atenção na bagagem sai mudado da viagem: "eu estou onde está a minha atenção, não onde estão os meus sapatos". Viajar não é simples, como ele mesmo o diz, não é apenas ir para um sítio longínquo.
Não nos esquecermos de levar a atenção connosco também não é fácil. Já algumas vezes estive em Coimbra sem sequer ter saído de Bruxelas, e o seu contrário é também verdadeiro. Em tempos conturbados, o esforço para nos mantermos atentos é o que nos qualifica. Contra a estranheza, a vontade. Contra a inevitabilidade, a escolha. Sempre fomos chamados para lidar com as nossas vidas. Que as nossas vidas não fiquem reféns da estranheza.
Artigo publicado no diário “As Beiras” a 26de Junho de 2011