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Este país não é para velhos

Era bom que começássemos todos a pensar no nosso futuro coletivo e que não fosse necessária outra pandemia para nos lembrarmos que os nossos mais velhos merecem viver em dignidade. Até porque, num piscar de olhos, nós seremos esses “mais velhos”!

A experiência da pandemia trouxe à luz do conhecimento geral algo que quem está no terreno já sabe há muito: é difícil ser velho em Portugal. A prevalência de doença crónica e depressão é elevada, o consumo de antidepressivos é excessivo, a pobreza nos mais velhos é preocupante, o abandono e a solidão são narrativas frequentes demais. Mas a crise dos lares durante a pandemia revelou mais: não temos estruturas suficientes para cuidar dos nossos velhos e as que existem, regra geral, não têm qualidade. Condições estruturais degradantes, falta de profissionais ou profissionais mal qualificados, lares ilegais e sem condições de higiene, promiscuidade entre autarquias, o terceiro sector e os lares. Tudo histórias com décadas de existência que pareceram vir à tona com a Covid-19. Infelizmente foi sol de pouca dura. Rapidamente voltamos a esquecer que este país abandona os seus mais velhos à solidão, a condições degradantes, a um fim de vida que não merecem.

E sabemos, bem de mais, que também entre os mais velhos as desigualdades são gritantes. Só entra num lar com condições de dignidade quem tem dinheiro. Mesmo famílias da chamada classe média, têm dificuldades enormes em pagar lares dignos. O Estado demitiu-se desta tarefa, delegou nas mãos do terceiro sector essa responsabilidade e nem sequer assumiu o papel de “regulador” ou “fiscalizador”, que pudesse evitar desigualdade no acesso e indignidade na oferta.

Vamos para velhos. Individualmente, é certo. Mas coletivamente também. O país está a envelhecer, a esperança média de vida a aumentar e a natalidade em quebra. Dentro de 30 anos teremos o dobro da prevalência de demências. Em algumas décadas seremos um “país de velhos”, conseguiremos ser um “país para velhos”?

O recente relatório da OCDE “Health at a glance 2021” ilumina com dados aquilo que esquecemos com a pandemia. Em alguns gráficos conseguimos tirar um retrato ao sector dos cuidados aos mais velhos. No primeiro gráfico, vemos a percentagem da população com mais de 65 anos que recebe cuidados de longa duração. Dos países da OCDE analisados, só há um pior que Portugal, a Polónia. A média da OCDE é de 10,7%, ao passo que em Portugal apenas 1,9% dos mais velhos recebem cuidados. Seria um valor aceitável, se tivéssemos uma população sénior saudável. Mas isso não é verdade: 64% desta população tem limitação nas atividades do dia-a-dia, enquanto que a média da OCDE é de 50%.

Dentro da população que recebe cuidados, a qualidade destes é bastante má. É isso que nos mostra o gráfico seguinte: a proporção de microorganismos resistentes aos antibióticos nas infeções identificadas em residências de longa duração. Portugal é mesmo o pior de todos os países analisados, com taxas de 46%, quando a média da OCDE é de 26%.

Quando olhamos para os profissionais que trabalham nestas instituições, a realidade continua a ser assustadora. No gráfico seguinte, o relatório compara o grau de diferenciação destes trabalhadores e mostra como o nível de formação é muito baixo, comparativamente com os restantes países.

Mas há pior! Quando comparamos a quantidade de profissionais em instituições destas, com os restantes países, constatamos a escassez: em Portugal há menos de 1 profissional por cada 100 pessoas com mais de 65 anos, ao passo que a média da OCDE é de 5 por cada 100. Pior que Portugal, só a Polónia e a Grécia!

Ou seja, temos poucos lares / residências para idosos, aos quais só tem acesso uma pequena parte da população; os que existem, regra geral, são de má qualidade; temos muito poucos profissionais nestas instituições e os que há têm baixas qualificações. E tudo isto se resume num último gráfico, os gastos em cuidados de longa duração, em percentagem do PIB:

Era bom que começássemos todos a pensar no nosso futuro coletivo e que não fosse necessária outra pandemia para nos lembrarmos que os nossos mais velhos merecem viver em dignidade. Até porque, num piscar de olhos, nós seremos esses “mais velhos”!

Sobre o/a autor(a)

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida
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