2023 chegou ao fim. Entramos nos dias finais em que todas as pessoas se apressam a escolher os melhores livros, álbuns, filmes do ano. Chegou a altura de organizar e classificar todas as experiências dos últimos (quase) 365 dias das nossas vidas, de apontar o que mais gostámos e o que não suportamos e, sobretudo, de nos comprometemos a, começando dia 1 de janeiro, sermos pessoas novas. António Gramsci detestava o Ano Novo. Para ele, a separação artificial do tempo, imposta pelo ritmo do sistema capitalista, instar-nos-ia a pensar a mudança de forma controlada e individualista. Talvez a forma frenética como somos levados a compartimentalizar todas as nossas experiências em tops e listas anuais seja um produto dessa ânsia de organizar a nossa relação com o mundo que nos rodeia. Reconhecendo a imposição destes ciclos temporais e dos seus rituais, confesso que não lhes sou imune e que 2023 veio apenas aumentar o grande gosto que sinto em ordenar os meus favoritos do ano ou até de sempre. Por isso mesmo, serve este artigo - escrito em jeito de partilha com a leitora - para deixar uma lista desordenada e incompleta de dez livros de ficção que me fizeram muito feliz nestes doze meses.
Em abril, obra de vários acasos, veio-me parar às mãos aquele que viria a ser o meu livro preferido do ano: Overstory (2018), do norte-americano Richard Powers. Vigorosamente sublinhado da capa à contracapa, o livro conta-nos a história de várias personagens cujas vidas se entrelaçam às das árvores que as rodeiam: a grande história da Natureza e dos seus ritmos que se desenrola suavemente por cima das nossas cabeças. Com as suas descrições de florestas que vivem como um só e cujas árvores comunicam entre si com raízes que se emaranham, faz com que este mundo não humano que nos rodeia repentinamente salte para fora do cenário das nossas vidas e se torne numa personagem principal. Assim, também o livro When I Sing, Mountains Dance (2019), da escritora espanhola Irene Solà, nos traz cogumelos, neve e ursos como narradores, lado a lado com as personagens humanas que habitam as montanhas dos Pirinéus. A cada palavra destas obras nos convencemos mais que a centralidade que damos a nós próprios, como humanos, neste mundo que habitamos, seja talvez mera arrogância.
Enquanto penso nestas dez leituras do ano, surgem-me nomes de tantas mulheres: Natalia Ginzburg, Deborah Levy, Hanya Yanagihara, Andrea Abreu, Joan Didion, Patti Smith ou Arundhati Roy. Foram estas as que mais me marcaram este ano: pelas suas histórias individuais, é certo, mas igualmente pelo fio que as une desta experiência tão plural e multiforme de ser uma mulher. De diferentes sítios e tempos, pesa sobre todas uma sociedade patriarcal e heteronormativa, as restrições do casamento e da moral ou do machismo e do preconceito, mas, simultaneamente, em todas vive um pouco da alegria de um amor que liberta, da amizade entre mulheres que partilham um destino e das palavras como forma de emancipação. Nesta época natalícia, ecoam em mim as descrições calorosas e melancólicas que Ginzburg, autora italiana, na obra Léxico Familiar (1963), faz da sua família já desaparecida: das discussões, dos risos, das histórias repetidas dos pais (que fingimos que nunca ouvimos porque sabemos que os deixará feliz). Penso no maravilhoso God of Small Things (1997), retrato brutal da sociedade indiana - composto por uma das escritas mais maravilhosas com que alguma vez me deparei -, e na sua autora Arundhati Roy que, ainda este ano, foi acusada de sedição pelo governo indiano devido ao seu ativismo político. Já ouvimos: tudo é político quando se é uma mulher. Talvez escrever até seja o ato mais político que uma mulher pode ter. Escrever num mundo de personagens, línguas, linguagens, cenários, obras, edições tão masculinas (a lista de coisas masculinas poderia ser bem maior, ficaremos assim).
Li O Jogo do Mundo, do escritor argentino Julio Cortázar, deitada na relva do jardim e na areia da praia. Guardo dele, em especial, uma frase que me pareceu maravilhosa: “Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Tu não escolhes a chuva que te vai ensopar até aos ossos quando sais de um concerto”. Soou-me uma descrição ímpar dos acasos com que esbarramos na vida. Estou convicta de que também não escolhemos exatamente os livros que nos marcam. É certo que vamos à livraria, lemos as contracapas, pedimos sugestões a amigos e familiares. Ainda assim, caem-nos nas mãos estes objetos tão especiais, e nem sempre sabemos como ou porquê. Estes foram os meus livros preferidos do ano, que me ensoparam até aos ossos como a chuva do Cortázar. Termino com uma lista ordenada para que talvez possam cair-vos nas mãos neste 2024.
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Overstory, Richard Powers
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Direito de Propriedade, Deborah Levy
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O Ano do Pensamento Mágico, Joan Didion
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Just Kids, Patti Smith,
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God of small things, Arundhati Roy
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O Jogo do Mundo, Julio Cortázar
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Pança de Burro, Andrea Abreu
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Uma Pequena Vida, Hanya Yanagihara
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Léxico Familiar, Natalia Ginzburg
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When I Sing, Mountains Dance, Irene Solà
Artigo publicado em Gerador.eu a 4 de janeiro de 2024