Não há braço de ferro algum entre Governo e professores. Quem, com pouco rigor de análise apresenta o problema nessa perspetiva pretende, de forma mais ou menos subtil, ignorar o desprezo com que esta classe profissional tem sido tratada nos últimos quinze anos. Primeiro, lançou-se um modelo burocrático que empurrou professores a especializarem-se em métricas de avaliação, ao invés de lhes dar instrumentos para melhorar o paradigma de ensino e aprendizagem. Depois de aplicado o absurdo modelo, foi-lhes dito que a progressão afinal tinha barreiras. Nem todos podiam ser excelentes na sua função, apesar das avaliações o terem aferido. As cotas que empatam milhares no mesmo degrau salarial há anos a fio são o presente de agradecimento a quem dedicou uma vida de trabalho à Escola Pública.
Se a situação é assim para quem conseguiu aceder à carreira, torna-se dramática para todos os “contratados”, que planeiam a vida mês a mês, acartam com a casa às costas todos os inícios de ano letivo ou semestre de aulas e recebem pouco mais de mil euros por mês para dar resposta a todas as despesas da vida, mais cara em tudo. A percentagem nesta condição aproxima-se de metade do total de professores na Escola Pública. É o duplo processo de precarização e desvalorização salarial.
O contexto político que empurrou a classe para a rua tem contornos novos e, em certa medida, diferentes daqueles que levaram, nos anos compreendidos entre 2008 e 2011, outros tantos milhares a sair à rua. O aumento de precários é gritante, as condições pioraram, apesar de algumas mudanças no campo pedagógico - parte delas com dificuldades de implementação dado o subfinanciamento. Contudo, há um rastilho de pólvora que atravessa várias legislaturas: a criação no senso comum que estamos perante uma classe profissional de privilegiados.
O Partido Socialista em primeira mão, e mais tarde o Governo PSD-CDS aproveitou o trabalho de casa já feito, alimentaram esse ódio social aos professores. Como era possível o país atender às reivindicações dos sindicatos numa altura em que precisávamos de emagrecer o Estado e pôr as contas públicas em ordem? E o que fazer com todos os outros funcionários públicos, com salários mais baixos e menos “regalias”? Foram convidados a emigrar, durante a intervenção da Troika. “Não sejam piegas”, era a palavra de ordem para humilhar uma classe inteira. A narrativa vingou até aos dias de hoje e conseguiu encontrar adeptos, durante esse anos, até junto de uma parte substancial da classe trabalhadora com professores no seu seio familiar. O problema é que os responsáveis políticos esqueceram-se que, hoje, ninguém compreende como é que um professor do Porto a dar aulas no Algarve não recebe um euro para fazer face às suas deslocações, dorme num quarto alugado sem contrato e é despejado quando chegar o verão e o turismo falar mais alto.
Nos desfiles, professores organizados por agrupamento, grupos de estudantes que levantam cartazes de apoio, outros profissionais da educação a reivindicar condições laborais, famílias que fizeram centenas de quilómetros para aparecer ao lado dos seus na Avenida da Liberdade. Não há nenhum fenómeno paranormal nas centenas de milhares que têm ocupado os portões das suas escolas e as ruas da capital, ao fim de semana. Quando o desprezo contínuo é modus operandi, há o dia em que salta a tampa da panela de pressão.
“Estamos a dar a aula mais importante das nossas vidas”, leu-se na faixa empunhada por um conjunto de professores na manifestação do passado dia 11 de fevereiro, em Lisboa. E o problema de António Costa é que foi a sala com mais gente deste ano letivo.