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Está na hora de fazer a luta toda, com todos!

Dia 21 é dia de Marcha Contra as Privatizações nas empresas dos transportes. Será uma oportunidade para denunciar a destruição dos transportes públicos por este Governo, o que é sempre de apoiar. Mas, tal como tem sucedido com as greves do Metro e da Carris, isoladas, podia ser outra coisa.

Terça-feira foi dia de greve no metropolitano de Lisboa, convocada pela Fectrans, com encerramento total das estações. Razão para esta greve: a entrega a privados da exploração do serviço de metropolitano, sob a forma de subconcessão, até 2024. Uma greve com paralisação total dos comboios (mas que é diferente de ser seguida a 100%) constitui uma prova da determinação dos trabalhadores, que é sempre de louvar. Especialmente porque já se anuncia nova greve no Metro, pelo mesmo motivo, para dia 26 de Maio, também de 24 horas.

Mas o efeito destas greves, ocorridas ultimamente nos transportes de Lisboa, pese embora toda a sua combatividade, têm tido uma eficácia reduzida para fazer recuar o governo no seu objetivo de tornar “irreversível” a privatização dos transportes, como dizia o ministro Pires de Lima, em recentes declarações à comunicação social.

Essa eficácia reduzida tem a ver com o facto de, mal ou bem, haver sempre transportes na cidade. E porquê? Porque, tal como sucedeu em anteriores greves do Metro, a Carris reforçou a circulação de autocarros “nos eixos servidos pelo metro, com o objetivo de minimizar os inconvenientes da paralisação”. E, de facto, as carreiras 726 (entre Sapadores e Pontinha Centro), 736 (entre o Cais do Sodré e Odivelas), 744 (entre Marquês de Pombal e Moscavide) e 746 (entre o Marquês de Pombal e a Estação Damaia), foram reforçadas.

E assim, mais uma vez, os trabalhadores da Carris foram, na prática, um instrumento nas mãos do Governo e duma Administração duma "coisa" que se chama Transportes de Lisboa para furar a greve do Metro. Tem-se passado exatamente o contrário nos dias de greve da Carris: os trabalhadores do Metro vão trabalhar normalmente e o efeito é furarem a luta dos seus colegas da Carris.

E, no entanto, quer uns, quer outros, têm feito, nos últimos meses, repetidas greves por um mesmo objetivo: contra a entrega a privados das respetivas empresas.

Acontece que, em vários plenários de trabalhadores, especialmente da Carris, ouvimos os dirigentes sindicais (incluindo Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, que, como se sabe, é trabalhador da Carris) fazerem profissões de fé pela unidade na ação de todos os sindicatos, contra a privatização da empresa. Por outro lado, a mesma Fectrans, que convoca greves de sindicatos, que são seus associados, para a Carris e para o Metro, recusa liminarmente promover greves em conjunto dos seus próprios associados, apesar do governo, involuntariamente, até ter “facilitado” a questão, pois está atualmente em processo de fusão das empresas (independentemente da questão de saber se todo esse processo não é um enorme atropelo às leis vigentes)! Alguém entende este comportamento esquizofrénico por parte do mesmo sindicato – a Fectrans -, pertencendo à CGTP, central sindical que proclama a necessidade de alargar a luta contra as privatizações pela unidade na ação de todos os trabalhadores, independente de serem ou não filiados em sindicatos?

A repetição e a insistência neste erro crasso não é motivo de satisfação para ninguém, nem serve de forma nenhuma os trabalhadores das empresas que estão confrontados com operações de privatização e processos de despedimentos.

Diz o ditado que “o pior cego é o que não quer ver”. Ora, afastar da Marcha de hoje uma parte dos trabalhadores dos transportes, filiados ou não noutros sindicatos que não pertencem à CGTP ou afastar Comissões de Trabalhadores como a da Carris apenas por razões de sectarismo, é fazer mais um favor ao Governo porque cava a desunião em vez de construir a unidade, quando o que seria necessário agora era de uma resposta o mais alargada e unitária possível, com a participação de todos os sindicatos e comissões de trabalhadores que estão contra as privatizações e os despedimentos.

Dia 21 é dia de Marcha Contra as Privatizações nas empresas dos transportes, entre o Largo de Camões e a Assembleia da República. Sendo mais uma manifestação contra as privatizações será sempre uma oportunidade para denunciar a destruição dos transportes públicos por este Governo, o que é sempre de apoiar. Mas, tal como tem sucedido com as greves do Metro e da Carris, isoladas, podia ser outra coisa.

Como não está convocada qualquer greve, isso significa que quem está a trabalhar não poderá participar. Lamentavelmente.

Estou certo de que se todos os sindicatos, da CGTP, da UGT ou independentes, se todas as Comissões de Trabalhadores do setor, independentemente das simpatias políticas dos seus membros, fizessem parte desta luta comum, qualquer marcha, qualquer luta comum, qualquer greve conjunta, teria um efeito multiplicador muito mais forte do que aquele que na realidade vai acontecer.

Barrar o atual processo de privatização e de despedimentos de centenas de trabalhadores não precisa de sindicatos ou partidos que se preocupem apenas com o seu “quintal”, precisa sim de se fazer a luta toda, agora, em conjunto. Quanto mais demorarmos, mais nos arriscamos a perder. É essa luta toda que continua a fazer falta.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda, economista.
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