Esta é a hora, vamos mudar de vida?

porHelga Calçada

04 de abril 2025 - 14:18
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Como se explica que, em democracia, uma parte significativa da população se auto prejudique com o seu sentido de voto? Ou até se abstenha de votar, exonerando-se do poder que tem de decidir um rumo diferente, cedendo esse desígnio a outrem?

Se a maioria da população expressasse no seu voto a confiança em quem defende realmente os seus interesses e propõe medidas que respondem às suas concretas necessidades, a esquerda partidária e progressista estaria sempre em maioria parlamentar. Este não é um mero desejo de quem se posiciona, convictamente, no espectro político da esquerda, mas uma constatação face à realidade vivida atualmente. Basta questionar quais são os principais problemas que apoquentam a maioria da população que vive em Portugal: habitação, salário vs custo de vida, mobilidade e serviços públicos. Haverá outras, pois, mas estas são, grosso modo, as questões que transversalmente mais impactam a vida das pessoas.

Se esta conclusão é evidente, como se explica que, em democracia, uma parte significativa da população se auto prejudique com o seu sentido de voto? Ou até se abstenha de votar, exonerando-se do poder que tem de decidir um rumo diferente, cedendo esse desígnio a outrem?

Várias áreas da sociedade encontram-se num estado de coma induzido, outras até num nível distópico, mas nada disso é fruto do sobrenatural tampouco é o estado natural das coisas. Entre outros fatores, deve-se, sim, à desinformação estratégica e à criação programada do medo, que, paulatina e gradualmente, se têm instalado e que servem de alimento a discursos de ódio entre e contra as pessoas, principalmente as mais vulneráveis. Esta tem sido a receita principal da extrema-direita e a preferida da direita conservadora nos últimos tempos. Através do controlo das emoções das massas, estas conformam-se com a ideia de que as suas dificuldades são inevitáveis. E assim, tais forças políticas asseguram a proteção dos interesses dos seus grandes financiadores e dos seus benefícios presentes e/ou futuros. Anúncios de perceções mal explicadas e inexplicáveis, que mais não são do que engodos da realidade, bloqueios à solidariedade e travões à igualdade.  Ataques à democracia, portanto. Mas não tem de ser assim, e não pode continuar assim.

Em breve vamos a novas eleições, sendo que velhas e novas narrativas já se apoderaram de certas intervenções políticas, não raras vezes inquinadas pela corrida eleitoralista. A grande maioria delas com o verdadeiro, senão único, objetivo de fazer o povo desacreditar que um outro e melhor futuro é possível para as suas vidas, roubando-lhes assim o sonho. Salvaguardar o direito à habitação, mediante tetos às rendas e proibição de venda de imóveis a estrangeiros não residentes, garantir salários dignos e um maior controlo sobre as avultadas margens de lucro das grandes distribuidoras e multinacionais, assegurar mais transportes públicos e promover a sua gratuitidade, exigir melhores serviços públicos de proximidade e maior investimento público, principalmente no SNS.

Não só é possível, como é imperioso!

É isto que a maioria da população quer e precisa. E é isto que a vontade política da esquerda propõe e quer fazer. Então, um rumo diferente cabe apenas e só a cada um de nós, desde que não nos deixemos enredar pelo medo e não embarquemos na retórica do ódio. Desengane-se quem pensa o contrário, o povo é quem mais ordena e é hora dele mudar a sua/nossa vida.

Helga Calçada
Sobre o/a autor(a)

Helga Calçada

Jurista e dirigente do Bloco de Esquerda.
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