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Esquerda radical: nem purismo, nem mainstream, nem marginalidade!

Pensar que se pode entrar em minoria num governo centrista e trazê-lo para a esquerda é, regra geral, pura ilusão.

Os apelos à unidade de esquerda são muitos. A agressividade do governo da Troika requer respostas urgentes, políticas de hoje para hoje que parem e invertam a destruição programada da sociedade. Mas os apelos são muitos e muito variados. Encetam-se esquemas, coligações, propostas de fusão, de extinção, de relação, propõem-se ultimatos, promessas de facilidades, de dificuldades. Na verdade este debate está, muitas vezes, vazio de conteúdo, porque morre no planeamento estratégico e não dá o passo em frente, o da discussão das ideias. Ou então fez uma fuga em frente, se considerarmos que a discussão das ideias vem primeiro.

Às propostas de governação ou coligação à esquerda, responde-se muitas vezes que sim mas só se fulano e sicrano defenderem isto que eu defendo! Ou então respondemos que tem que ser porque a urgência do momento compele, mesmo que tenhamos de fazer concessões. Como se existisse uma dicotomia estratégia/programa. Como se se pudesse optar entre o “purista” estratega que vê na simples ideia de governo todas as possibilidades, ou o “purista” ideológico para quem só existem ideias e estratégia é coisa de “vendido”. Na verdade esta dicotomia não existe porque uma estratégia é a aplicação de um programa. Sem estratégia e sem programa não há política.

Uma estratégia precisa de ideias concretas e fortes, precisa de um acordo prévio, que muitas vezes é um simples programa mínimo, facilitando a “concessão” do programa máximo. Mas as concessões têm que ser medidas e ponderadas sob a pena da desvirtuação completa das ideias centrais. Na verdade não se trata de fazer “concessões”. Isso é um argumento falso, porque concessões existem na política a todos os níveis. Quando o indivíduo se torna militante e corporiza as ideias de um coletivo faz “concessões”. Quando pequenos coletivos se fundem em coletivos maiores têm de fazer “concessões”. Quando vários coletivos edificam um partido de massas, mais “concessões” têm de fazer. Quando se defende um governo unitário de esquerda, toda a esquerda organizada e a não-orgânica faz concessões em cima de todas as anteriores! As concessões fazem parte do processo da política toda.

No seu novo livro, “A Esquerda Radical em Portugal e na Europa: Marxismo, Mainstream ou Marginalidade?”, André Freire reserva para a esquerda radical 3 destinos possíveis: o purismo ideológico Marxista e Soviético (como se não existissem outros purismos de esquerda…) onde coloca o PCP; para o Bloco ou outros grupos mais pequenos que fizeram a crítica do Estalinismo reserva o “mainstream” ou a marginalidade. Para Freire o “mainstream“ é a integração em governos de “socialistas da 3ª via” ou centristas. A marginalidade é o desaparecimento público daqueles que recusam a via governativa alargada.

André Freire lança este livro esquecendo-se da realidade mais atual da Europa. Partidos da esquerda radical que se integraram em governos centristas houve muitos, como por exemplo a Refundazione Comunista no governo de Prodi. Abdicando de pontos fundamentais do seu programa e, em geral, da esquerda, a Refundazione entrou num governo de Prodi que foi um desastre, que não foi capaz de infletir políticas neoliberais agressivas e nem foi capaz de se demarcar da guerra de agressão que ocorria no Afeganistão e no Iraque. Onde pára a Refundazione hoje, depois de ter experimentado o “mainstream”? Pois, desapareceu, já não conta, está aonde? Na marginalidade. Refundazione: do “mainstream” à marginalidade em dois tempos! Na Grécia, onde uma cisão do Syriza, a Esquerda Democrática, decidiu quebrar com o programa anti-austeritário e integrar uma coligação centrista para aplicar o memorando da Troika. Na verdade não chegou aos 10% dos votos e está em queda nas sondagens! Sem purismo, com muito “mainstream”, lá chegará à marginalidade!

Na mesma Grécia, o Syriza recusou claramente a integração em governos centristas ao delinear como condição inabalável para uma coligação de esquerda a recusa do memorando da Troika. Estaria irremediavelmente votado à marginalidade, segundo Freire! Pois vejam o que se passa na Grécia: não só o Syriza perdeu as eleições de Junho por apenas um ponto percentual como lidera hoje, destacado, todas as sondagens na Grécia. Criou um partido de massas, com uma implantação social nunca vista na Europa para uma esquerda radical moderna e está na vigência de governar, sem centristas, com um claro programa de recusa da Troika e da austeridade. Syriza: nem purismo, nem “mainstream”, nem marginalidade!

Pensar que se pode entrar em minoria num governo centrista e trazê-lo para a esquerda é, regra geral, pura ilusão. Só há duas condições para que tal aconteça: ou o partido centrista está vazio de programa e de liderança, ou o partido minoritário é dominante em termos de discurso hegemónico. Em Portugal não temos uma coisa nem outra. António José Seguro já o afirmou publicamente: só haverá governo de esquerda se governar com a troika! O PS tem um programa e uma liderança e ambos incluem a austeridade! Por muitas vozes socialistas que se levantem contra a troika, elas de nada valem se não tomarem a direção do partido ou conquistarem as suas bases! Por isso a disputa com o PS é uma disputa de política, de ideias, de discurso contra-hegemónico. Ganha-se o PS para a esquerda se a sua atual direção for derrotada no debate público. Se as massas da esquerda se movimentarem e demonstrarem claramente que estão do lado da esquerda, do lado do combate à austeridade.

Só haverá governo de esquerda, se houver uma forte base popular. Um governo de esquerda, se não for suportado por uma forte movimentação do povo, baseada em ideias e propostas concretas para salvar a economia da bancarrota e as pessoas da agressão social, cai em dois dias – enfrentará toda a oposição nas suas várias vertentes: comunicação social, “opinion-makers”, instituições, grupos económicos, interesses instalados! É por isso que arranjos de cúpula nas direções dos partidos ou meras coligações eleitorais ou governativas são sempre efémeros.

O Bloco “começou de novo” para romper com a rotatividade política que existe em Portugal, é verdade. “Começou de novo” para ocupar um espaço na esquerda, deixado em aberto pela ortodoxia marxista e pelas “3ª vias”, é verdade. Mas também é verdade que o Bloco “começou de novo” para mudar a forma da política e essa mudança passava por recusar fulanismos e partilha de cargos e poderes, para devolver às ideias o seu lugar primordial na política. Um governo de esquerda tem que ter uma ideia e essa ideia só pode ser a recusa da Troika, do seu memorando e da sua austeridade.

Governo ao centro, com os atuais dirigentes do PS, é governar ambiguamente, é governar contra as populações e as suas aspirações. É governar comprometido com a chantagem da dívida, com a certeza dos “sacrifícios”. Haverá austeridade à esquerda? Pode uma ideia austeritária ser de esquerda? Nunca, a isso responde a própria 3ª via de Anthony Blair – os mercados permitem o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade, o progresso livre, o crescimento económico, o fomento do emprego! A austeridade é o oposto disto. Terá António José Seguro de criar uma 4ª via para a social-democracia para justificar a sua “austeridade inteligente”, as suas “abstenções violentas” e outras não-posições que asseguram à direita e à burguesia Europeia a destruição avassaladora de um Estado, de um País, de uma sociedade democrática! A 4ª via de António José Seguro é a dissolução total de um PS no neoliberalismo mais agressivo, mais violento de sempre! É a capitulação final da social-democracia ao capitalismo selvagem! Depois da 4ª via de António José Seguro não fica nada, não fica nenhum social-democrata de pé, não há PS à esquerda, só barbárie e o senso do ridículo de um partido implodindo em si mesmo.

Há uma urgência para um governo de esquerda, é um facto. Há urgência para entendimentos à esquerda, outro facto. Factos simples, tão simples quanto o facto de que esquerda é antónimo de austeridade, de sacrifícios, de Troika! Para a esquerda só resta uma saída: nem purismo, nem “mainstream”, nem marginalidade.

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