A esquerda portuguesa e os ayatollah do Irão — a mesma luta?

porFabian Figueiredo

10 de fevereiro 2026 - 15:23
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A incompatibilidade entre a esquerda e a teocracia iraniana é estrutural. Quem defende a liberdade sabe que ela não é compatível com o rasto de desolação das incursões militares.

Na expetativa de que a mentira reiterada substitua a verdade, as acusações falsas são repetidas até à exaustão. A alegada simpatia da esquerda portuguesa com o regime iraniano e a sua suposta oposição à mobilização popular que o contesta é uma delas. Para desmontar esta narrativa com a graça que a sua falta de fundamento exige, comecemos pelo início: a Revolução iraniana de 1979 é frequentemente apresentada como uma mera manifestação confessional, mas a realidade é bem mais complexa. Foi uma insurreição popular vasta, onde a esquerda iraniana - do Partido Tudeh aos Fedayeen - serviu de espinha dorsal intelectual e organizativa contra a autocracia do Xá, que várias potências ocidentais sustentavam desde que os poços de petróleo jorrassem lucros.

O reinado de Mohammad Reza Pahlavi, que se estendeu por 37 anos, consolidou-se através de uma ferida traumática na soberania persa: o golpe de Estado de 1953. A "Operação Ajax", assumidamente orquestrada pelos serviços de inteligência britânico e norte-americano, destruiu a experiência democrática e republicana de Mohammad Mossadegh para reverter a nacionalização do petróleo.

O que se seguiu foi uma monarquia repressiva e corrupta sustentada pelo terror da SAVAK, a polícia secreta que mantinha um sistema prisional pejado de milhares de dissidentes políticos. Esta repressão sistémica foi o catalisador que uniu setores amplos e tão distintos como o clero xiita, a elite liberal e a esquerda secular numa frente comum para derrubar a monarquia.

O que se seguiu à queda do Xá esteve longe de ser uma aliança. Khomeini não convidou a esquerda nem os liberais para governar: convidou-os para o cadafalso. A consolidação da República Islâmica não foi a vitória da Revolução, mas a sua captura pelo sectarismo confessional.

Enquanto os movimentos de esquerda defendiam a reforma agrária, a laicidade do Estado e a plena igualdade de direitos para as mulheres, o clero conservador impunha uma institucionalização teocrática da nova ordem social e económica.

A esquerda iraniana foi, aliás, a primeira a identificar e denunciar a "islamização" das conquistas populares. Já em março de 1979, mulheres e militantes progressistas saíam às ruas para protestar contra a imposição do véu e a erosão dos direitos cívicos, antevendo que a criação da "polícia da moral" serviria como uma ferramenta de controlo biopolítico. Para o novo regime, a imposição de códigos de conduta religiosos não era apenas uma questão de fé, mas um mecanismo para neutralizar a luta contra a desigualdade e desviar a agenda de emancipação social pela obediência teológica.

O "Verão de Sangue" de 1988 constituiu o ponto de não retorno, quando uma "comissão da morte" ordenou a execução sistemática de milhares de militantes e presos políticos. Nos pátios de prisões de Evin e de Gohardasht, o regime encenou o fim da pluralidade: milhares de militantes de esquerda e democratas foram executados em massa, com os corpos de muitos deles a serem pendurados em guindastes de construção em praças públicas de cidades como Teerão, uma demonstração do horror desenhada para asfixiar qualquer réstia de esperança democrática e secular.

O rasto de sangue não interrompeu a pulsação de uma parte significativa da sociedade civil que se recusa a ser subjugada pela teocracia. O Irão foi palco de ciclos de protesto sucessivos que desmentem a imagem de um regime inquestionável. Ao longo das décadas, a esquerda iraniana constituiu-se como o motor de resistência persistente, marcando presença desde as revoltas estudantis de 1999 até à linha da frente do Movimento Verde de 2009 - onde a fraude eleitoral massiva serviu de gatilho para uma revolta geracional que expôs as fraturas da elite clerical - até às sucessivas vagas de 2017 e 2019, motivadas pela degradação económica, pela austeridade teocrática e pela corrupção sistémica. Nestas mobilizações contra a asfixia do regime, as forças progressistas iranianas estiveram na vanguarda da contestação, pagando frequentemente com a liberdade o desafio ao consenso clerical.

Em cada um destes episódios, a resposta do regime foi invariavelmente a mesma: o corte das comunicações, a repressão letal nas ruas e o encarceramento de sindicalistas e intelectuais. É neste contexto que deve ser lida a explosão do movimento "Mulher, Vida, Liberdade", em 2022, desencadeada pelo assassinato de Mahsa Amini. Não se tratou de um fenómeno isolado, mas da culminação de décadas de resistência ao controlo exercido pelo Estado.

Imputar à esquerda portuguesa afinidade com este regime é um atrevido exercício de reescrita da história. A força da luta pela liberdade iraniana encontrou sempre tradução na esquerda portuguesa. Tanto os protestos de 1979 como o massacre de 1988 encontraram em Portugal uma solidariedade ativa, documentada em iniciativas e publicações que denunciaram, desde o primeiro momento, o sequestro da revolução e a consolidação do autoritarismo. Não é por acaso que foi o Bloco de Esquerda que apresentou, na Assembleia da República, o primeiro voto de solidariedade com os manifestantes e de condenação inequívoca da violência do regime que já vitimou milhares de manifestantes.

Esta compreensão da dinâmica interna iraniana é a premissa que fundamenta a justa crítica ao intervencionismo externo. Se a oposição ao bombardeamento do Irão é hoje um imperativo de sanidade política, é porque a memória recente constitui um inventário de desastres onde a ingerência externa serviu, sistematicamente, de catalisador ao autoritarismo. O precedente de 1953 - quando o eixo anglo-americano derrubou a democracia secular de Mossadegh devido aos seus interesses petrolíferos - destruiu a única alternativa viável ao autoritarismo no Irão, criando o vácuo de legitimidade onde o radicalismo religioso viria a florescer décadas mais tarde. Esta lógica de ingerência já se manifestara antes na Síria, em 1949, com o golpe contra Shukri al-Quwwatli, primeiro presidente após a independência, inaugurando um ciclo em que a soberania dos povos foi sistematicamente sacrificada no tabuleiro da Guerra Fria.

O rasto de destruição deixado pelas incursões no Iraque, no Afeganistão ou na Líbia constitui a prova empírica da falência do militarismo externo como ferramenta de democratização. No Afeganistão, a memória de um "Rambo II" cinematográfico, que celebrava os antecessores dos Talibã como combatentes da liberdade, permanece como a face irónica de uma política que armou o radicalismo que mais tarde viria a combater. O balanço dessa ocupação de duas décadas é devastador: um país fragmentado onde a produção e exportação de narcóticos atingiram picos históricos durante a presença das forças militares internacionais, alimentando redes globais de criminalidade sob o olhar complacente da ocupação. No fim, os Talibã e o seu obscurantismo voltaram ao poder.

Na Líbia, a intervenção protagonizada por potências ocidentais que, anos antes, haviam reabilitado o ditador Muammar Kadafi, resultou no colapso do Estado que transformou o país num entreposto de instabilidade e tráfico humano que transborda para o Mediterrâneo. É neste contexto que a autoridade moral de certas latitudes da política portuguesa deve ser escrutinada. 

Durante os governos da Aliança Democrática e, mais tarde, de Cavaco Silva, Portugal não foi um observador passivo, mas um facilitador da máquina de guerra de Saddam Hussein. Entre 1980 e 1982, o Estado português autorizou a exportação de cerca de 130 toneladas de urânio concentrado, proveniente das minas da Urgeiriça, diretamente para o Iraque. Este material destinava-se ao reator de Osirak num período em que o regime iraquiano não oferecia garantias de supervisão internacional.

Durão Barroso, enquanto governante com responsabilidades nos Negócios Estrangeiros, teve a tutela política sobre a emissão de certificados de "utilizador final" que viabilizaram triangulações de armamento para Bagdade, precisamente quando o ditador iraquiano já utilizava armas químicas contra populações civis. A ironia de Barroso ter, anos depois, apoiado a invasão do Iraque na Cimeira das Lajes expõe uma realpolitik de geometria variável, onde os tiranos só são considerados insuportáveis quando deixam de ser parceiros de negócio úteis.

As consequências da política de terra queimada materializam-se na ascensão do Estado Islâmico e na crise dos refugiados. O Daesh não foi um acidente teológico, nem os atentados com que aterrorizou várias cidades europeias, mas uma consequência direta da desestruturação da sociedade iraquiana que a invasão de 2003 produziu.

A recusa da intervenção militar externa fundamenta-se na análise das suas consequências: no caso do Irão, a intervenção externa é o mecanismo que permite ao regime desmantelar a contestação popular e transformá-la em unidade nacional defensiva sob a tutela do poder vigente. Ao rotular a dissidência interna como colaboracionismo com potências estrangeiras, o governo iraniano encontra no bombardeamento o pretexto necessário para liquidar, sob o signo da segurança da pátria, a mesma pulsão democratizadora que o desafia por dentro.

O entusiasmo bélico é indissociável da estratégia de hegemonia regional do governo de Benjamin Netanyahu e da doutrina de Donald Trump. Este conceito pressupõe a imposição de um estado de asfixia económica permanente e de desestabilização institucional para forçar o colapso do Estado, a fragmentação do território e a domesticação do regime, substituindo as suas principais figuras, permitindo o controlo de recursos naturais estratégicos e a eliminação de qualquer contrapeso regional. 

A desestabilização regional é um risco tão palpável que os próprios aliados históricos de Washington no Golfo - nenhuma delas uma democracia, sublinhe-se - se têm oposto à escalada militar. A preocupação destes estados não deriva de uma convergência ideológica com Teerão, que não existe, são, a esse nível adversários históricos, mas da prevenção de um incêndio político e militar, com consequências económicas imprevisíveis e um custo humano incalculável.

A incompatibilidade entre a esquerda e a teocracia iraniana é estrutural e ideológica, opondo o projeto de emancipação social e laica a um regime que subsiste através da exclusão. É precisamente por este compromisso com a democracia que a via militar é rejeitada: quem defende a liberdade sabe que ela não é compatível com o rastro de desolação deixado pelas incursões militares. A agressão externa não é um auxílio à resistência interna, mas o seu principal sabotador.

Neste xadrez geopolítico, a retórica de Donald Trump, e de quem reproduz a sua política, sobre a sorte do povo iraniano revela um cinismo profundo. O seu desinteresse pela democratização é total - esforça-se aliás por desconstruir a democracia no seu próprio país - visando apenas uma tutela externa que maximize o controlo de recursos naturais. A solidariedade real exige, em sentido contrário, o apoio à autonomia da sociedade iraniana. O destino de Teerão deve ser decidido no Irão, pelas iranianas e pelos iranianos, e nunca em gabinetes estrangeiros que historicamente convivem mal com a soberania de uma democracia real.


Versão extensa do artigo publicado na edição de 9 de fevereiro do jornal “Público”.

Fabian Figueiredo
Sobre o/a autor(a)

Fabian Figueiredo

Deputado do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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