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A esquerda, a política e a moralidade

Por que razão catalogam os acusadores como “veneno” o uso de critérios éticos ou de linguagem moral pela esquerda?

À boleia do “caso Robles”, registou-se uma bateria de fogo sobre a esquerda. Comentadores assumidamente engajados e outros igualmente engajados mas não assumidos, uns mais ressabiados que outros mas todos com um indisfarçável espírito de missão de denúncia pública, vieram dizer ao país que a esquerda padece de um pecado original: o “moralismo”. A esquerda, bradaram, estaria a provar do seu próprio veneno: o uso de uma grelha moral para a leitura da realidade política e de uma linguagem moral para a avaliação do comportamento dos vários atores políticos. António Costa, por exemplo, declarou, com ironia sobranceira, "não imagin[ar] que quem prega com tanta virulência a moral política cometesse pecadilhos". Com esta construção habilidosa que – usando de um maniqueísmo moralista primário – associa moral a pregadores ascetas e pragmatismo a políticos moderados, António Costa deu voz ao entendimento de que a política deve ser um terreno de mínimos éticos e que, por ser assim, se deve resumir a frios critérios de eficiência de resultados. Eis a política como domínio de Maquiavéis (na melhor das hipóteses) ou de homens sem qualidades (na pior).

O dispositivo retórico mais usado para afirmar essa apologia do pragmatismo frio é a acusação à esquerda de que esta se arroga uma “superioridade moral”. Extraordinária acusação esta quando ela é feita por esse grande bloco político que tem sujeitado o país seja a uma onda de destruição social justificada por pérolas moralistas bacocas como “vivemos acima das nossas possibilidades”, seja à alegada impossibilidade de políticas de justiça social mais avançadas por causa de juízos moralistas como o de que “os compromissos para com os credores são para ser honrados”. Nada tem sido tão moralista em Portugal como este credo. E nada tem sido tão destruidor da sociedade como esse moralismo.

O discurso de acusação à esquerda suscita duas perguntas. A primeira é esta: por que razão catalogam os acusadores como “veneno” o uso de critérios éticos ou de linguagem moral pela esquerda? A resposta é simples: porque a crítica moral é a principal ameaça ao pragmatismo sem alma com que atuam na conservação de uma sociedade injusta. Os moderados acusadores vergaram-se aos bons modos para com Zainal Bava ou Ricardo Espírito Santo, usaram de moderação quando o cambalacho do BPN surgiu e vituperaram o juízo moral da esquerda sobre a sangria do erário público pelas PPP. Tudo porque a prudência máxima e a ambição mínima é o que os determina. Deixemos a ética e os adjetivos fortes de lado, dizem-nos, e assumamos o espaço da política como o de um debate entre bacalhau com batatas ou batatas com bacalhau – moderado nas escolhas, no estilo e mais ainda na ambição. A segunda pergunta é esta: deve a ação da esquerda deixar de usar juízos éticos para se afirmar? A resposta é também simples: não, não deve. A esquerda diferencia-se justamente pela sua não resignação ao pragmatismo cínico. Sim, a transformação profunda da realidade social ou assenta num juízo ético sobre ela ou não será transformação.

A moderação “amoralista” em que os cínicos querem confinar a política não é só feita de “desmoralização” da linguagem. Nem, uma vez “desmoralizada” a linguagem, a questão dos moderados acusadores é a da coerência entre o projeto e a prática da esquerda que não se conforma com esses cânones. Não, o que os moderados acusadores têm como alvo é mesmo o projeto dessa esquerda e a sua capacidade de animar na sociedade um juízo crítico, eticamente fundado, sobre o projeto que os moderados acusadores defendem. Foi a anulação de um projeto de transformação social profunda que foi enunciada nas recentes acusações de moralismo feitas à esquerda.

A esta estratégia de moderação para manter o status quo a esquerda responde com a radicalidade das suas escolhas. Corremos o risco de sermos avaliados pela coerência dos nossos comportamentos face a essas escolhas? Preferimos esse risco à quietude fria dos cínicos perante as imoralidades da ordem social e económica.

Artigo publicado no jornal Expresso, 18 agosto 2018.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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