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A esperança chegou

Precisamos muito que a firmeza e clareza do novo governo grego seja acompanhada e apoiada. As eleições foram na Grécia, é certo, mas é em defesa dos povos da Europa que se levanta a voz do primeiro-ministro grego.

O que aconteceu na Grécia no dia 25 de Janeiro foi o início de um novo ciclo político. Contra toda a chantagem, o povo grego decidiu apoiar a formação de um governo que se opõe às instituições europeias e se bate por uma União Europeia onde as pessoas estejam no centro da política e não os mercados.

Em apenas uma semana de governo percebeu-se que Alexis Tsipras e o Syriza falavam a sério. As medidas até agora adotadas, uma a uma, contrariam a vontade da Sra. Merkel, do BCE, da Comissão Europeia, mas vão ganhando, ao mesmo tempo, apoios muito para além dos que seriam de esperar, como é o caso do Banco Central de Inglaterra. A austeridade como princípio, meio e fim deixou de ser desígnio de fé.

Assim, nos primeiros três dias de governo, suspenderam-se os processos de privatização do Porto de Pireus, da companhia pública de eletricidade e dos aeroportos regionais, aumentou-se o salário mínimo, voltou a garantir-se o acesso à saúde a todos os cidadãos gregos, reintegraram-se na função pública os funcionários que tinham sido demitidos de forma inconstitucional. Relativamente a esta última medida houve uma ação particularmente simbólica: o Ministério das Finanças readmitiu as mulheres da limpeza que há mais de 250 dias acampavam à porta e suspendeu os contratos milionários de assessorias.

Uma a uma, as medidas do governo grego, ainda sob a égide da Troika contrariaram as imposições da mesma Troika. No centro de todas estas decisões está uma convicção simples, a de que não pode haver donos ou patrões na Grécia que não sejam o povo grego. Para além de mostrar de forma evidente que a política é o espaço das escolhas, o novo governo grego promete ainda abalar a Europa.

A firme convicção de romper com a austeridade e de renegociar a dívida, se apoiada por outros países cuja dívida é igualmente insustentável, só poderá beneficiar o projeto europeu. Resta saber se os governos irão apoiar a proposta de uma conferência europeia da dívida ou se continuarão a ser marionetas dos interesses de meia dúzia. O novo governo grego responde perante o mandato popular.

O mandato de um povo que durante semanas gritava que a “a esperança está a chegar”. A esperança chegou. Precisamos muito que esta firmeza e clareza do novo governo grego seja acompanhada e apoiada. As eleições foram na Grécia, é certo, mas é em defesa dos povos da Europa que se levanta a voz do primeiro-ministro grego. Pode ser que um dia Portugal tenha um chefe de governo que também defenda assim o seu povo.

Artigo publicado no jornal “As Beiras” a 31 janeiro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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