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Esmiuçar o BPN

Qualquer tentativa de clarificação do fenómeno BPN ficou marcada por um esforço grande de PSD e CDS para que nada se passasse.

Numa altura em que a austeridade foi elevada a nova máxima nacional, a possibilidade de esmiuçar o fenómeno BPN representa, sem dúvida, uma vitória importante. A criação de uma comissão de inquérito potestativa é uma questão de dignidade (da democracia) nacional. E o apoio à sua criação por mais do que um dos partidos da esquerda parlamentar também não deixa de ser um elemento relevante. O apelo lançado pelo Bloco para que a esquerda parlamentar se unisse em torno da questão surtiu efeitos.

Como seria de esperar, mais uma vez qualquer tentativa de clarificação sobre esta questão ficou marcada por um esforço grande de PSD e CDS para que nada se passasse. A constituição de uma comissão de inquérito foi chumbada pela maioria sem pestanejar. Como se o que estivesse em causa fosse um mero fait divers político. Uma história lateral que, como muitas outras, passou pela agenda política nacional.

Em qualquer parte do mundo democrático, a história do BPN estaria no centro da agenda política. Um banco fortemente povoado por ex-ministros de um dos principais partidos vai à falência com inúmeras irregularidades associadas. O Presidente da República em exercício não só conseguiu simpáticas mais valias com a compra e venda de ações do referido banco, como a sua casa de férias foi adquirida num duvidoso negócio associado ao grupo detentor do banco. Acrescente-se ainda que uma das figuras sobre a qual recaem maiores suspeitas em todo o caso era amigo e conselheiro de estado nomeado pelo Presidente da República. E como se toda a história não pudesse ficar ainda mais enredada, depois de ter sido nacionalizado e do Estado ter assumido os milhares de milhões de prejuízos, o banco é vendido em ultra-saldo a uma instituição liderada por um ex-ministro do Presidente.

Não é possível enfrentar o atual contexto de austeridade em Portugal sem que episódios como o do BPN sejam minimamente esclarecidos. Claro que dificilmente qualquer comissão parlamentar conseguirá esclarecer totalmente o que se passou. Não se esperam milagres. De qualquer modo, é o mínimo que se pode fazer pela dignidade da democracia em Portugal.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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