A política europeia, cravada a fogo pela chancela Merkel & Merkel, está subordinada aos ditames e propósitos dos mercados em detrimento dos direitos dos cidadãos. As pessoas são tratadas como que peças de jogo da tômbola do mercado, agrilhoadas à roleta dos destinos que os mesmos mercados viciadamente fazem girar. Unilateralmente cortam-se pensões e apoios sociais, congelam-se progressões e reduzem-se salários, aumentam-se impostos e taxam-se serviços. Tudo em nome da concertação das contas públicas e da competitividade especulativa. Esta nova concepção de poder governativo, imposta como indeclinável pela União Europeia, afigura-se como mais uma das programadas medidas de adulteração do arquétipo legislativo do trabalho. Assim se legitimam os mais penosos sacrifícios aos trabalhadores e implacavelmente se validam as medidas mais restritivas dos direitos. Está em marcha uma grave ameaça aos valores que sustentam o exercício da democracia.
Portugal está contaminado por este malfadado e esgotado modelo de abismo social. Depois do tacticismo negocial, habilidosamente encenado pelo conluio PS/PSD, cá está um orçamento de lógica recessiva e regressiva, que tem por intenção o reforço de todos os cortes e a consolidação de todos os roubos. Em resultado de toda esta extorsão de direitos, anunciada por um afrontoso ministro que tem o desplante de considerar os cortes do sector público interinamente perpétuos e que instiga a sua adopção no privado, fica a promessa de que a crise cristalizou e a certeza de que a instabilidade eternizou.
Mas ao mesmo tempo que se apregoa este chorrilho de calamidades somos brindados com uma grande fornada de nomeações politicas para cargos de estado; com os maiores lucros de uma intangível banca; com o esbanjamento de 5 mil milhões de € no BPN; com a prodigiosa ascensão das famílias fidalgas; com o desavergonhado dislate, certificado por uma horda de economistas de uma só irmandade, que não há alternativas e que este é o único caminho.
Continuam a ser os que nada fizeram para que tal acontecesse que pagam os despautérios dos que fizeram para que assim fosse e insistem para que assim seja.
Perante este cenário, cujo diagnóstico é incontestável, só se pode responder com acção e luta. Temos que saber responder na proporção da crise. Em força, unidos e com determinação. Aderir à Greve Geral é, ao momento, o mínimo que podemos fazer.
Temos que mostrar à chusma dos tecnocratas neoliberalistas que não estamos dispostos a suportar mais as suas patranhas especulativas. Que não nos comovemos com a desgraça do fatalismo e que não nos resignamos perante a doutrina da inevitabilidade.
Temos que ser todos, e de todo o lado, a paralisar o país com a revolta e o descontentamento que nos consome por dentro. Temos que erigir um marco de travagem e de viragem nesta desumana autoridade da austeridade e deixar bem claro que o futuro passa pelas nossas mãos. Não nos queremos limitar a defender direitos, exigimos a transformação das políticas e da sociedade. Este selvático capitalismo financeiro capitulou. Há alternativas, há outras políticas e outras vias, há outro mundo e outra felicidade.
No dia 24 de Novembro a escolha é de cada um mas também é colectiva. A escolha é entre uma vida melhor e mais solidária ou um agravamento das condições de vida e maior disparidade. A escolha é entre a desistência e a firmeza, entre a anuência e a rejeição, entre a apatia e a luta.
E como só com luta se vencem as causas, há que lutarmos todos pela causa toda.