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A escola parou, mas os estereótipos não

Assistimos na Telescola a um pedido para as meninas usarem leggings e os meninos calças de fato de treino na aula de Educação Física. A luta pela igualdade de género exige, e bem, que cada pessoa se vista como bem entender e como melhor se sentir.

Já passou mais de um ano desde a polémica da correcção do teste de inglês, em que constatei o facto de existir um exercício que pretendia perpetuar a ideia de que a roupa tem género. Há um ano acreditava que a culpa da polémica não foi inteiramente da professora, mas sim do sistema de ensino, e cada vez mais acredito que estava correcto.

Muito recentemente, assistimos na Telescola a um pedido para as meninas usarem leggings e os meninos calças de fato de treino na aula de Educação Física. Esta situação abre de novo um debate sobre qual é o papel da escola na formação de cidadãos e cidadãs mais livres de poderem escolher quem são, como se identificam e qual a sua visão do mundo.

Felizmente assistimos a progressos civilizacionais e o mundo aparentemente caminha para uma sociedade melhor do ponto de vista da igualdade de género. Mas, apesar de vários anos de lutas, na questão do vestuário e de papéis de género há estereótipos que se mantêm. A roupa não passa de um mero objecto, não tendo por isso necessidade de ser associada ou conotada a algum género, idade ou condição social.

Da mesma forma que as calças de fato de treino são e devem ser acessórios sem qualquer conotação de género, a luta pela igualdade de género exige, e bem, que cada pessoa se vista como bem entender e como melhor se sentir. Afinal quem somos nós para ditar o que cada um e cada uma deve ter no seu armário?

O que vimos quer há um ano, quer recentemente, é o resultado da falta de vontade política, de sucessivos governos, na formação do corpo docente das escolas na área da igualdade género. O machismo estrutural leva a que professores e professoras perpetuem nas escolas, mesmo sem essa intenção, ideias e preconceitos errados sobre o que deve ser o vestuário de cada um e cada uma.

O que nós, activistas feministas, queremos é acabar com um sistema machista e patriarcal que nos impõe papéis de género, limitando a nossa liberdade. O que nós queremos é uma sociedade feminista, e uma sociedade feminista é uma sociedade onde cada pessoa pode vestir o que quer sem julgamentos e sem pressões sociais, onde um menino pode usar rosa e uma menina azul.

A resposta para este e outros problemas sociais idênticos passa por investir em formação contínua em todo o corpo docente da escola pública e fazer campanhas informativas à população, visando que todos e todas acompanhemos os progressos civilizacionais e sociais, para que a longo prazo tenhamos gerações que lutem unidas pelo fim dos papéis de género, do racismo, da xenofobia, do machismo, da homofobia, da exploração, e de todas as formas de opressão. Enfim, pela transformação radical da sociedade.

Artigo publicado em publico.pt a 20 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Ativista estudantil e LGBTI+. Membro do Bloco de Esquerda
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