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A escola como parque privado

Todas as façanhas educativas do governo Sócrates estão marcadas pela busca do efeito eleitoral, pelo negócio que coloca o bem comum não se sabe como nas mãos de alguns ou pela ideologia dos cortes orçamentais. De preferência por todos estes factores ao mesmo tempo em alguma medida. Se bem que a contenção orçamental só valha para alguns casos selectivos. E só a qualidade da educação parece não caber nunca na equação governamental.

Assim, a "escola a tempo inteiro" e o ensino do inglês nas escolas do primeiro ciclo significaram, para além de uma escolarização de mais uma fatia da vida das crianças, uma privatização de parte do currículo que abriu um excelente negócio para algumas empresas de vão de escada em detrimento da qualidade do serviço educativo prestado nas Actividades Extra-Curriculares.

Sócrates daqui lavará as mãos já que isso é responsabilidade das autarquias, mas aparecerá ao mesmo tempo a dizer que foi ele que permitiu o alargamento da escola de forma a satisfazer os pais. E este é o mesmo Sócrates que mantém as condições e horários de trabalho que criam a necessidade de encerrar as crianças nas escolas a pais que saem do trabalho tarde. E claro que, parte menor no negócio, os professores das AEC permanecem precários e mal pagos, porque o deficit a isso obriga. Sócrates proporcionou uma oportunidade de negócio ao vender aos privados este tempo que a sua governação aumenta.

O computador "Magalhães", para além de ser o embuste do computador português que afinal não o era, para além dos programas educativos com erros, foi adjudicado directamente a uma empresa sem que se conheçam os critérios e foi gerido por uma fundação que devia sobreviver com o dinheiro das operadoras de telemóvel, mas em que afinal o Estado teve de gastar muito e ficou por avaliar o impacto pedagógico deste investimento. Mas o efeito, dar um computador, foi conseguido e rende votos. Sócrates capitalizou também o gadget e a crença na magia informática.

As famosas "novas oportunidades" que consistem em dar qualificações a adultos também cumpriram o seu efeito eleitoral. Sendo marcadas por objectivos numéricos de formandos que era necessário qualificar, permitiram abrir inúmeros centros sem preocupação com a qualidade da formação porque o que interessa é "validar competências" e mudar estatísticas de níveis de escolarização. Sócrates viu na necessidade que muitos tinham de um diploma para tentar melhorar a sua vida outra oportunidade de negócio. E fica a oportunidade perdida de um sistema de educação de adultos que contribua para mudanças de fundo.

Por último, Sócrates viu também uma oportunidade de negócio onde outros apenas viam os destroços dos edifícios escolares. À custa da necessidade de renovação destes criou uma empresa, a "Parque Escolar" (uma "entidade pública empresarial" dotada de "autonomia financeira e patrimonial") que fica detentora dos edifícios das escolas secundárias em que vai intervindo. Assim, estas ficam num limbo entre o património público e a indefinição de estatuto da entidade que as passa a deter e que, como qualquer outra empresa pública, nada garante que não seja alienada ou que decida alienar parte do seu património. Por outro lado, esta é uma empresa que faz jus a outra das imagens de marca do governo, a adjudicação por ajuste directo, e que introduz nas escolas secundárias a lógica da rentabilidade das estruturas ao contrário da utilização do bem público ao serviço das comunidades locais: para obter lucros os vários espaços escolares serão alugados.

Sócrates é mesmo o protótipo do vendedor que, ao vender a sua própria imagem, vende também o tempo das crianças e o tempo que os pais não têm, os computadores que se supõem necessários para ensinar não se sabe o quê, os diplomas de que se necessita para se "subir na vida". Agora chegou a vez de vender o espaço das escolas e a sua fachada. Aliás, outro dos pontos em comum desta "política educativa" é precisamente a cultura de fachada e uma modernização provinciana: se aprendermos inglês (técnico de preferência), se mexermos nos computadores (que agora os rapazes estudam todos nos computadores mas talvez isso já não seja um emprego com saída), se tivermos diplomas para mostrarmos, mesmo que não tenhamos competências, se as escolas tiverem uma boa fachada então somos modernos e competitivos. E talvez ninguém se preocupe com o que se passa lá dentro. A escola de Sócrates é um imenso parque escolar de negócios.

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Professor.
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