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Equacionar a pandemia!

No apogeu da globalização a pandemia confinou o mundo. Tanta modernidade, tanta tecnologia, tanta inovação e afinal o impensável acontece de um modo tão prosaico.

No apogeu da globalização a pandemia confinou o mundo. A realidade ultrapassou a ficção e como que saído das catacumbas dos horrores a película tornou-se facto. A força do imparável colapsou e a fragilidade perante o vírus está patente na grande incapacidade de travar a sua propagação e as nefastas consequências. Tanta modernidade, tanta tecnologia, tanta inovação e afinal o impensável acontece de um modo tão prosaico. Afeta todos, na verdade uns mais que outros conforme as condições de vida dos países, das comunidades, das pessoas, mas o perigo é iminente para qualquer um em qualquer lugar. Agora dizem-nos que já não é pandemia, mas sim um problema endémico com o qual temos de aprender a viver, como se fosse uma doença crónica no início de um longo período de intermitências. Já não sabemos se estamos em fase de abrandamento com picos ou se temos picos que abrandam. Na verdade, pouco sabemos num mundo de grande conhecimento. Ouvimos especialistas da matéria a contradizerem-se, confundindo a nossa avidez de certezas. Temos vacina daqui a um ano ou daqui a dez? A vacina é eficaz ou prejudicial? A vida social será retomada em breve ou viveremos por muito tempo em isolamento? O uso da máscara é eficaz ou provoca o efeito de falsa segurança?

O nosso destino comum tem de ser repensado e equacionado numa outra perspetiva que não a voracidade capitalista dominante

Até se pode entender estas incongruências como próprias da dinâmica da ciência que não é una e que se desenvolve muito por contraditório. O problema é que as antinomias explicativas e discrepâncias deliberativas, tão próprias dos últimos tempos por quem tinha por obrigação a clareza e determinação nas tomadas de decisão, aumentam medos e geram pânico. Na verdade, esta nova forma de estar interfere com o modo de ser. O pavor da concentração confronta-se com a irresistível vontade de desconfinar. A ambicionada ida à praia é obstruída pelo risco e pelos procedimentos a adotar. O restaurante e o bar estão condicionados pelas medidas e pela imagem – socializar de máscara põe-nos mesmo mascarados. As cidades dormitório transmutaram-se para escritório. Os transportes coletivos passaram a ter espaço vazio e a circulação deixou de ter hora de ponta. O futebol, o cinema, o espetáculo artístico, entraram em quarentena prolongada e deixaram de fazer parte do gozo e da conversa.

A grande incógnita é perceber, com consistência argumentativa, se o que está a acontecer é um pesadelo transitório, um tormento duradouro ou uma mudança profunda de vivência social. E é isto que assusta. A acreditar em algumas conceções, porventura mais pessimistas sendo que também nada nos garante da asserção das mais otimistas, podemos estar perante um marco indelével de transição para um novo comportamento social com estereotipadas atitudes de conduta e relacionamentos. Assim como que um engajamento da realidade com o cinema futurista de visão fatalista.

De modo pragmático, é de todo importante que esta crise, também de identidade e de existência, impele a uma reflexão sobre o modelo de sociedade que pretendemos e, no mínimo, nos leve a questionar se os caminhos que têm sido seguidos são os mais adequados para a humanidade. Se por um lado, temos de redefinir os objetivos da globalização para que não seja um instrumento económico de imposição dos mais fortes e de aceleração das desigualdades, por outro, temos que travar a deriva da desglobalização assente em discursos de extremismo racista e ódios nacionalistas, tão próprios de um tempo passado que alguns querem recrudescer.

Na heterogeneidade de povos e culturas, na mundividência e cruzamento imbrincado de identidades, na preservação das diferenças e conjugação das diversidades, temos sempre em comum o facto de sermos humanos e habitarmos o mesmo planeta. Por isso, o pensamento coletivo tem de ser dominante e as decisões têm que ser pensadas nessa perspetiva.

Esta premissa não pode estar desfasada da realidade nem ser entendida como uma ingenuidade voluntarista, tem de ser vista como uma exigência de ação prática que enquadre os padrões civilizacionais em novos modelos de desenvolvimento. Que altere os paradigmas produtivistas e de consumismo transitando-os para um equilíbrio ambiental de sustentação dos recursos naturais. O nosso destino comum tem de ser repensado e equacionado numa outra perspetiva que não a voracidade capitalista dominante. Caso contrário, sem dramatismos nem demagogias, podemos estar sujeitos a viver num estado de emergência permanente com pandemias cada vez mais letais. Porventura, estamos num ponto de viragem em que a humanidade se confronta com o seu futuro e se nada for feito para mudar e reincidirmos nos tremendos erros que têm sido cometidos, sujeitamos todo o planeta ao pagamento de uma fatura dramaticamente pesada. Urge, equacionar a pandemia!

Sobre o/a autor(a)

Professor. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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