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Encontros de Alvito

A desertificação é uma espécie de doença autoimune que não tem a ver só com a população. Lembro-me de alguém me ter explicado que o deserto do norte de África aproveita as alterações climáticas para ir conquistando terreno a regiões outrora férteis.

Não é fácil pensar o interior, muito menos a partir de Lisboa. Décadas de discursos, grupos de trabalho, ministérios, secretarias de estado e estruturas de missão ensinaram-nos isso. Há anos que o país devia ter consolidado algum tipo de pensamento estratégico sobre o desenvolvimento local mas continuamos feitos baratas tontas atrás de propostas como a transferência deste tribunal ou daquele serviço central para uma capital de distrito.

Desse ponto de vista até pode ser mais interessante debater a localização do novo aeroporto, mas o problema de origem mantém-se e tem a ver com a hierarquia das coisas: querem convencer pessoas a mudarem-se para o interior sem antes tentar convencer quem já lá está a ficar.

A desertificação é uma espécie de doença autoimune que não tem a ver só com a população. Lembro-me de alguém me ter explicado que o deserto do Saara aproveita as alterações climáticas para ir conquistando terreno a regiões outrora férteis. A agricultura intensiva e o esgotamento dos solos agravam os períodos de seca que por sua vez fazem avançar o deserto. Aquilo que muitas vezes é apontado como solução para o interior - o crescimento da atividade económica a mando de multinacionais a quem é indiferente o desenvolvimento do território - só pode dar asneira.

A soberania das comunidades sobre o território está ameaçada. Não é apenas uma questão de propriedade tanto quanto de abandono. É difícil explicar a uma pequena comunidade cujos filhos trabalham na fábrica mais próxima que ela devia ser fechada por poluir demais; é difícil justificar que apesar de serem o principal empregador da maioria destes municípios, os serviços públicos tendem a encolher e não a expandir. É difícil entender por que razão quem quer viver no interior e deslocar-se de comboio para o litoral todos os dias não o pode fazer. É difícil dizer a uma comunidade que o seu futuro demográfico depende de uma comunidade imigrante cuja inclusão foi deixada ao acaso. É difícil acreditar que tanta terra em modo super intensivo produza tanto deixando tão pouco mais do que um lastro de insustentabilidade. Deram-nos veneno como se fosse remédio e acabaremos por morrer da cura sem que alguma tivéssemos deixado de estar abandonados.

Não tenho ilusões sobre soluções mágicas mas sei que o caminho não é por aí. E o mais estranho é que, de onde eu venho, parece que todos sabemos isto. Mas então porque é que as coisas não mudam?

Sem receitas fáceis, deixo duas pistas mais ou menos óbvias. A primeira é sobre a regionalização e implica um alerta. Temos de desarmadilhar rapidamente esse entrave ao desenvolvimento do país mas com cuidado - se nos lançarmos num modelo burocratizado, pouco transparente e sobretudo pouco plural e democrático de poderes intermédios teremos falhado o objetivo e desacreditado todo o processo.

A segunda é um regresso ao início deste texto: para pensar o interior é preciso estar lá. Foi isso que um grupo de alentejanos de nascimento ou coração decidiu fazer a partir de uma ideia que se foi desnovelando ao longo de vários anos. Assim nasceram os Encontros de Alvito, um festival de arte, ciência e ecologia feito com a hierarquia certa, de dentro para fora.

Agora que a primeira edição está lançada, os Encontros deixarão de pertencer aos seus proponentes e passarão a ser de todos e todas as que quiserem passar por Alvito no próximo fim de semana. Porque, no final das contas, todos fazemos falta para pensar o interior.

Artigo publicado no jornal “I” a 14 de outubro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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