A empresa-mundo e o economista na sua ilha

porFrancisco Louçã

19 de setembro 2023 - 10:18
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O pesadelo de saber tudo sobre toda a gente é um grande objetivo comercial e é de lembrar 
que esta é uma realidade que a história do capitalismo moderno nunca conhecera até hoje.

Comemorou-se há poucos dias o 25º aniversário da Google, lembrando o conto de fadas de dois estudantes que lançaram o empreendimento e o seu sucesso universal. Algo ensombrada pela ultrapassagem por outras empresas em aplicações de inteligência artificial, o seu principal produto, a Google pode, no entanto, vangloriar-se de fazer parte de um quarteto de empresas que têm como clientes grande parte da população mundial. Criou para isso uma ideologia: Eric Schmidt, o CEO que lançou a Google no seu período heroico, apresentava o universo online como “o maior espaço não-governado do mundo”.

Claro que é uma forma de dizer. De facto, estas empresas exploram os dados comportamentais dos utilizadores e oferecem-lhes um simulacro de vida (o entretenimento, a comunicação, o trabalho, a opinião, em suma, o tempo total da atenção). Desse modo, elas são governo do mundo, jamais alguma empresa teve tanto poder sobre os seus clientes. Exercem-no de forma pouco subtil: em 2015, foi descoberto que quem visitasse os 100 sítios mais populares importaria seis mil cookies para o seu computador, quase todos sem relação com a pesquisa e 92% dos quais enviando dados para a Google, e esse processo tornou-se cada vez mais intrusivo e sofisticado. Esta passagem do discurso sobre a liberdade individual para a submissão a um controlo total foi o tema de um notável livro de 2020 de Shoshana Zuboff, professora na Harvard Business School, “A Era do Capitalismo de Vigilância”, como já tinha sido do de Byung-Chul Han, “No Enxame: Reflexões sobre o Digital”, ambos na Relógio D’Água, escritos ainda antes do anúncio do Metaverso, por Zuckerberg, e de Musk ter engolido o Twitter.

A Google pode vangloriar-se de fazer parte de um quarteto de empresas que têm como clientes grande parte da população mundial

Há em toda esta transfiguração do poder digital uma figura ímpar que merece destaque nesta secção de economia. É um brilhante académico, Hal Varian, professor da Universidade da Califórnia, que foi contratado em 2002 para economista chefe da Google. O que ele nos tem vindo a ensinar diz tudo sobre este quarto de século.

Hal Varian, o homem de Crusoe

Daniel Defoe publicou em 1719 um livro, “A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoe”. O livro teve sucesso, 700 versões num século, e conta uma história picaresca sobre um aventureiro que constituiu uma comunidade numa ilha deserta. Dizia Crusoe, depois de peripécias várias: “A minha ilha estava agora povoada, e vi-me muito rico em súbditos; e era uma reflexão alegre, que muitas vezes me ocorreu, que parecia um rei. Primeiro que tudo, toda a ilha era minha propriedade, e portanto tinha o direito indiscutível de domínio. Segundo, o meu povo estava perfeitamente submetido — eu era senhor e legislador absoluto — todos me deviam a vida e estavam dispostos a sacrificá-la por mim, se houvesse ocasião.” A história é uma alegoria ao poder absoluto (e curiosamente também à liberdade religiosa).

Ora, esta história foi caricaturada entre os economistas por Hal Varian, professor da Universidade da Califórnia e que, em manuais de microeconomia que ensinaram gerações de jovens até hoje, apresentou Crusoe como o modelo do “mercado de um homem só”, fantasiando a fantasia de Defoe. O objetivo era apresentar uma engenhosa matemática sobre as maravilhas da maximização, ou de como o capitalismo floresce. Nesta história, Crusoe teria a escolha entre trabalhar (apanhar cocos) e não fazer nada; havia portanto um único agente que era produtor e consumidor, que criou uma empresa para vender a si próprio o seu produto, e de que era acionista e cliente. Criou mesmo uma moeda para estas trocas consigo próprio. Varian reconhece no manual que esta vida é “por vezes um pouco esquizofrénica, mas é o que temos se queremos representar a economia com uma única pessoa”. Concluiu então que “a grande virtude de um mercado concorrencial é que a única coisa com que cada indivíduo ou empresa tem que se preocupar é o seu próprio problema de maximização”. Não existindo sociedade tudo é simples e foi isto que os estudantes sofreram.

Entram outras pessoas

Com esta doutrina, Varian foi contratado para economista-chefe da Google em 2002. A sua tarefa já não era simular Crusoe a vender a si próprio, mas sim fazer acreditar a toda a gente que é Crusoe e vender-lhes a publicidade que a Google gere. Foi isso que explicou em 2020 à Associação Americana de Economistas: a sua empresa criaria assim muitos “mercados de uma só pessoa” e cá está Crusoe de novo, mas agora submetido a um poder absoluto. O exemplo favorito de Varian era que os serviços da empresa permitissem a uma seguradora desligar o motor de um automóvel se o pagamento do seguro estivesse atrasado. Há portanto neste mundo muita gente, desde que cada pessoa pense ser única no seu universo paralelo, submetendo-se à gestão de dados que uma inteligência superior realizará algures.

Resultou, é hoje a maior empresa de publicidade digital do planeta e há quase 20 anos que Varian é o seu profeta. Se este projeto de sociedade mercantil for bem-sucedido, cada pessoa será uma ilha, como no universo maravilhoso de Crusoe, embora não viva isolada, pois é mapeada pela empresa que datifica o mercado. O pesadelo de saber tudo sobre toda a gente é um grande objetivo comercial e, quando se evocam os 25 anos deste trajeto fulgurante, é de lembrar que esta é uma realidade que a história do capitalismo moderno nunca conhecera até hoje.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 8 de setembro de 2023

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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