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Emergências

Há 10 anos participei, em Copenhaga, na Conferência anual das Nações Unidas para o combate às alterações climáticas, a COP15. Na altura, chegava ao fim o Protocolo de Quioto e o desfecho foi uma gigantesca desilusão.

Nenhuma alternativa foi criada, nenhuma medida concreta foi avançada e dez anos volvidos aqui seguimos, retidos entre as promessas e o pouco feito. Na semana que antecede mais uma COP, desta feita em Madrid, voltamos às discussões sobre o que está em cima da mesa. Não houve muito caminho feito, mas há hoje a percepção de que vivemos tempos de emergência.

No último ano, vimos as ruas a encher um pouco por toda a Europa, e um pouco por todo o mundo, com jovens que reivindicam o seu futuro e que sabem, que se nada for feito, é um futuro comprometido. Se a emergência climática é uma realidade, o que falta mesmo é passar à acção e perceber que o futuro tem pouca viabilidade se nada for mudado no actual modelo de desenvolvimento. Vários países já declararam essa emergência e esta semana foi a vez do Parlamento Europeu o fazer.

Se a emergência climática começa a entrar nas nossas vidas por via das greves estudantis e das acções políticas, há ainda um longo caminho a fazer para que entre nos nossos quotidianos e assuma relevo nas nossas vidas. Por experiência própria, sei que cada vez que falamos de emergência climática há quem venha reclamar a saúde, ou a educação, ou a habitação como lutas mais importantes e às quais, supostamente, não damos atenção. Esta ideia de ocupar o espaço público numa lógica de pôr umas lutas contra as outras é um sinal da fraqueza de cada uma delas, e isso é preocupante.

Na semana em que soubemos que a pobreza em Portugal aumentou, em particular, entre os trabalhadores, porque se resiste à revisão da lei laboral ainda vinda do tempo da Troika e que tanta desigualdade gerou; na semana em que tivemos acesso ao estudo sobre o estado da saúde na União Europeia e percebemos que, em Portugal, o acesso à saúde permanece muito desigual e com problemas estruturais para os sectores da população mais desprotegidos; na semana em que as escolas estão em greve por não serem dadas condições de trabalho efectivas a tantos funcionários e faltarem tantos meios; nesta semana pode mesmo parecer que o clima e a emergência climática são problemas de outro nível. Mas a verdade é que estas lutas estão todas interligadas e têm uma base comum: o modelo de desenvolvimento em que vivemos, que persiste na protecção do lucro e na desprotecção dos interesses comuns. É por isso que o resultado da próxima COP é tão importante para que nenhuma das lutas fundamentais se perca. É mesmo preciso que se comece a mudar o sistema, é mesmo preciso garantir que protegemos a nossa casa comum e é mesmo preciso que se perceba que estas lutas, além de interligadas, são as nossas lutas de uma vida.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 30 de novembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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