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Emergência climática e Covid, um debate autárquico

A aproximação do debate autárquico é uma oportunidade de introduzir novos temas na agenda mediática. A emergência climática continua a existir, apenas foi relegada para segundo plano pelo impacto da pandemia Covid-19.

Os efeitos e ensinamentos da pandemia no ambiente são vários e nem sempre no mesmo sentido. Por um lado, pela menor mobilidade, tanto rodoviária como área, foi possível reduzir a emissão de dióxido de carbono em 7%, um número histórico e sem precedentes, que no entanto, são consequência dos vários confinamentos que ocorreram um pouco por todo o mundo. Assim sendo, não se trata de uma redução sustentável, sendo necessárias políticas públicas que produzam o mesmo.

O combate à pandemia produziu mais resíduos de plástico. A maior utilização de equipamentos de proteção em contexto hospitalar, assim como as máscaras descartáveis na comunidade ou a maior utilização de embalagens para refeições takeaway, criaram uma nova fonte de resíduos, que não é negligenciável.

Tal como justiça ambiental não compete com a justiça social, devemos igualmente recusar uma falsa dicotomia com a saúde. Pelo contrário, ambientes saudáveis geram comunidades saudáveis e inclusivas

É possível criar sinergias entre a saúde e o ambiente. Com a aproximação do debate autárquico, é obrigação de uma esquerda moderna e progressista priorizar este tema. Tal como justiça ambiental não compete com a justiça social, devemos igualmente recusar uma falsa dicotomia com a saúde. Pelo contrário, ambientes saudáveis geram comunidades saudáveis e inclusivas.

As autarquias devem distribuir máscaras reutilizáveis, de preferência de produção local, em vez de máscaras descartáveis. Aumentar a capacidade de reciclagem dos plásticos, garantir que todos os edifícios autárquicos atingem a neutralidade climática o quanto antes, promover uma cultura de desperdício zero nos serviços municipais, assim como, apresentar e incentivar a soluções de mobilidade suave nos seus territórios.

Estas medidas devem ser executadas em articulação com os serviços de saúde da sua área de influência. As autarquias não são responsáveis pelas políticas públicas de saúde, mas são parte interessada do que ocorre na sua área de influência. Podem contribuir para que as instalações do SNS sejam climaticamente neutras, desperdicem menos água e tenham produção de energia solar sempre que possível. Melhorar a acessibilidade, reduzindo a necessidade de utilização do transporte individual, seja com mais e melhores transportes públicos ou com ciclovias, são também medidas essenciais onde as câmaras têm a obrigação de contribuir.

É possível lutar por melhor saúde e melhor ambiente para todas e todos nós. A luta por um melhor ambiente não se faz por oposição a outras reivindicações, mas sim dentro de um paradigma holístico. As consequências de cruzar os braços serão sentidas de forma mais severa por todos aqueles que já menos têm, pelo que a luta por melhor saúde e por respostas à emergência climática, é também, uma luta por mais equidade e justiça social.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro especialista em saúde infantil e mestre em saúde pública.
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