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Em tempo de tradição, papas e bolos já não enganam os tolos

Novo ano, novo orçamento. Manipulações e joguinhos, tudo técnicas velhas. Mais respeito, menos caridadezinha. Aconselho o filme "Comportem-se como adultos" e depois assinalem as semelhanças, um passatempo.

O OE 2020 foi entregue segunda-feira na Assembleia da República, a discussão entre generalidade e especialidade culmina a 6 de Fevereiro. É muito cedo, claro, para conhecer o posicionamento de cada partido. Não há acordo escrito como aquele que sustentou a legislatura anterior, logo, cada um está por si. Anunciam-se medidas que serão divulgadas à última hora para cativar os votos da esquerda. As ditas cartas na manga. Será política mas não é decente.

Uma medida muito propalada é a do aumento extra das pensões. Como qualquer cidadão, arrebitei as orelhas. Ouvi com atenção, li ainda com maior cuidado não fosse escapar-me alguma coisa do “extra”. Pasmai, o extra é comezinho, será o que faltar para os 10€/mês. Ou seja, depois de atribuído o aumento substancial de 0,24% (ou 0,3%) - tão chorudo que me engasguei – e não chegando aos 10 €, o Governo prepara-se para acrescentar o que faltar até aos 10€. Que gesto magnânimo!

Não quero qualificar esta benesse; não quero que a minha voz se confunda com as críticas da Direita que só não faz pior porque não tem a faca e o queijo na mão; não quero parecer indiferente a algumas opções feitas. Mas não posso calar uma indignação profunda, uma manipulação daquilo que a Esquerda tem exigido e as centrais sindicais. A Esquerda, os sindicatos, os movimentos sociais têm exigido um aumento extraordinário, um montante que ajude a combater a pobreza, que não pára de crescer, e a perda de poder de compra que se vem verificando desde 2008. Só os espíritos contabilísticos confundem um aumento extraordinário com um extrinha!

Mais 10 €/mês soa a uma medida caritativa. Os pensionistas não querem caridade; como os cidadãos em geral querem que o Governo assuma uma estratégia que 1. Se coadune com os princípios de um verdadeiro Estado Social; 2. Contribua para acabar com a pobreza; 3. Atenue o fosso entre rendimentos. Por outras palavras, pensionistas, reformados, cidadãos querem uma intervenção que ataque de vez o problema social existente em cerca de 4 milhões de famílias portuguesas, entre pensionistas e funcionários públicos. Os 10€/mês, percentualmente, parecerão muito numa reforma de duzentos e poucos euros mas as pessoas não vivem percentualmente. Enfrentar a vida, seja no mercado, na farmácia ou nos passes sociais, não acontece à percentagem. O custo de vida sobe no seu todo e quem não puder acompanhar fica completamente esmagado e marginalizado. Não há um mundo à parte para quem vive das pensões ou dos ordenados, como quem diz que estes aqui, no mundo de baixo, pagam menos uma determinada percentagem. Não só não existem dois mundos, como as realidades baixa, média baixa e média-média se aproximam cada vez mais, acontecendo essa aproximação por baixo. Nivelar por baixo é agora a ambição mas não projecta nada de bom para o futuro. Quem tem pensões mais baixas vai recebendo uns extras miseráveis, em tese a caminho do SMN, enquanto aos outros se garante uma contínua perda de poder de compra. Prosseguindo este tipo de solução, vamos todos a caminho de que tipo de sociedade?!

Se, nos últimos anos, os funcionários públicos já perderam o equivalente a dois ou três meses de vencimento, o mesmo é verdade para os pensionistas. Houve reposições mas nem tudo ficou resolvido e como se isto não bastasse para provocar inquietação, nunca houve um verdadeiro aumento extraordinário para fazer face à subida do custo de vida. Se a legislação que enquadra os aumentos não permite melhor, bom, tem de se procurar outra saída. A contrapartida não pode ser a subjugação à burocracia. Só não vê mesmo quem se acantonar no seu castelo; sair à rua, olhar bem para as pessoas, falar com elas, e logo se identifica uma mão cheia de problemas que cada um procura atabalhoadamente disfarçar. Até quando abusarás, Catilina, da nossa paciência?

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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