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Em nome do impossível

Um governo de esquerda não se decreta unilateralmente, é resultado das alterações sociais que proporcionam a sua concretização, é nesse sentido que se coloca a refutação à soma aritmética das partes.

A mudança dos equilíbrios sociais e políticos agendam, por si, novos desafios e discussões. Não é por obra do acaso, que onde a violência da austeridade choca com a resistência popular, a esquerda ergue a bandeira da luta por um governo alternativo, para lá do slogan e da agitação. E não podia ser de outra forma.

No imediato, as agendas adversas à sua concretização têm rotulado a hipótese de utópica ou de impraticável, se não ceder ao encanto de sereia do pragmatismo centrista. Por outro lado, parece um horizonte distante, quando a proposta política é diminuída à soma das intenções de voto dos partidos que rejeitam o memorando da troika. Talvez seja bom relembrar, que esta mesma ditadura opinativa se impunha quando o Syriza elevou a fasquia à constituição de um governo de esquerda.

Vamos por partes, um governo de esquerda não se decreta unilateralmente, é resultado das alterações sociais que proporcionam a sua concretização, é nesse sentido, que se coloca a refutação à soma aritmética das partes. No entanto, isso não invalida, muito pelo contrário, impõe um entendimento de diversas forças sociais e políticas disponíveis para o concretizar. A maioria social para o suportar precisa de interlocutores que o concretizem, rejeitando o sectarismo, impondo uma nova era de ideias e práticas, que devolva à esquerda socialista uma posição de disputa da hegemonia na sociedade.

Quanto maior for a luta e a contestação social, aliada a um interesse objetivo, que pretenda romper com o paradigma governativo dominante, maior será a sua exequibilidade. A cada greve, protesto, manifestação e ação de luta política triunfante, a metamorfose ganha força. Vai-se saindo do casulo da reivindicação e ganha asas a possibilidade de execução.

Para todo o raciocínio não padecer de otimismo militante e de determinismo, convém afirmar que a conquista do poder pela esquerda socialista não cai do céu. Para que a indignação e o protesto sejam convertidos em alternativa, são necessárias propostas, ações e atitudes concretas e assertivas que permitam o diálogo com a sociedade e apontem a lucidez e a solidez da alternativa. Temos enunciado quatro1:

Anulação da dívida abusiva, redução da dívida a 60% do PIB e renegociação de prazos e juros com todas as instituições credoras, públicas e privadas, nacionais e internacionais;

Reposição dos rendimentos cortados e garantia dos direitos essenciais à Escola pública, ao Serviço Nacional de Saúde, à Segurança Social pública;

Nacionalização da banca intervencionada pelo Estado, com mobilização de recursos para o investimento público e para o pleno emprego, e dos bens comuns que foram privatizados ou concessionados (energia, combustíveis, telecomunicações);

Novo sistema fiscal, combatendo a fraude e deslocando carga fiscal do trabalho para o capital e património;

A articulação entre a proposta política e a solidariedade ativa e presente com todas as lutas que se levantam, contra os tentáculos da troika, são casamento preciso para dar espaço à razão necessária e demonstrar o seu alcance e fronteiras. Um governo de tipo diferente e novo, legitimado pela soberania popular democrática e pela defesa dos interesses dos cidadãos, só pode ser adverso ao austeritarismo.

Se a sua razão de ser se arquiteta na rejeição da política da troika, ele é ideologicamente formado contra a austeridade. Não vale refutar o memorando e ser simpático com as políticas de Monti e Hollande. A dose e a paixão entre o tecnocrata e o socialista francês podem ser diferentes, mas os rumos europeus têm demonstrado, que no alargado centro político-partidário, a austeridade diz presente em todas as famílias. Do consenso do liberalismo e do estado social light, a nova síntese entre conservadores e socialistas europeus fez-se em torno da austeridade, tem pouco interesse discutir se é com ou sem cafeína, pois espalha sempre a amargura social e a destruição de direitos, liberdades e garantias.

Um governo de esquerda, soma esquerda à esquerda, não baixa guardas perante o centro, constrói novas polarizações, pratica o estereotipado de impossível em nome do real. Para contraponto com os fadistas do oposto, está o governo Prodi/Bertinotti, para nos relembrar que a política do monolitismo do possível é o fim da utopia.

Em nome do futuro presente, como sempre, nunca e “nada menos que o assalto dos céus”.


1 Propostas aprovadas na VIII Convenção do Bloco como condições necessárias para a constituição de um governo de esquerda. Podem ser consultadas na página 34 do Caderno Debates 1

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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