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Elogio das ervas daninhas

A cidade é um ecossistema frágil, que precisa de humanos polinizadores. Um pouco de terra, uma fissura, a vida nasce. Ali, como ervas daninhas indesejadas, há outras lógicas de cidade não mercantil que estão a acontecer.

Boris Presseq é botanista no Museu de Toulouse e teve a ideia de começar a escrever com giz, nas calçadas das ruas da sua cidade, os nomes das plantas selvagens que nascem nas bermas e nas juntas dos passeios, que emergem nas frinchas dos muros, que formam minúsculas paisagens vegetais no meio do betão, que cobrem, sem pedir licença, as fendas em que exista um pouco de terra e os espaços urbanos em que a intervenção humana abrandou. Identificar estas pequenas plantas selvagens, defende Presseq, é uma forma de atenção, de fazer com que o nosso olhar repare nelas. Nomeá-las é um modo de sublinhar a sua importância e de respeitar esta flora, frequentemente oprimida.

Eu quero um Porto em que haja lugar para as floras selvagens da imaginação e para os projetos das pessoas que não pedem licença

Dentes de leão (ou o-teu-pai-é-careca), malvas, urtigas, roseiras bravas, ervas-de-são-roberto lilases, delicadas margaridas, tanchagens, pequeninos malmequeres amarelos, flores azuis de chicória… Não faltam, se a isso estiver disposto o nosso olhar, pequenos jardins naturais de uma beleza exuberante nos interstícios das nossas cidades, a cada passo que damos. Muitas destas plantas, como se tem dedicado a mostrar a herbalista Fernanda Botelho, podem usar-se em bebidas e infusões, são comestíveis, servem para temperar comida e são úteis para desinfetar feridas ou cuidar de picadas. São parte essencial de um ecossistema.

O movimento de botânicos rebeldes, que desataram a nomear as plantas a que não damos valor, tem-se espalhado por várias cidades da Europa e tem ajudado a mudar a visão que temos das ruas que habitamos. Na verdade, temos muito a aprender com estas plantas espontâneas que fervilham em meio urbano, fonte de néctar e de pólen, por vezes em quantidade muito superior às plantas de jardim. Indesejadas, mal-amadas pelos serviços municipais, elas contam-se entre as preferidas dos insetos e são essenciais para a polinização – as abelhas, que as amam, que o digam. Tantas vezes olhadas apenas como invasoras de culturas ou hospedeiras de pragas, estas ervas daninhas são na verdade, se vistas de um outro prisma, um sinal de vitalidade e um exemplo de resiliência que germina mesmo onde parece imperar o abandono e a falta de condições.

Pensei nisto a propósito das Fontainhas, do ramal da Alfândega e de um vídeo da Câmara do Porto que apresenta dois projetos para a “requalificação funcional” daquele espaço à beira-rio, que compreende a possível “criação de um parque urbano em socalcos”, a “implementação de zonas de descanso e de miradouros”, de “escadas rolantes” para juntar a cota alta e a baixa, a instalação de “um transporte rápido urbano operado por veículos modernos”, tudo com o objetivo de dotar “o Porto de um novo percurso relevante”.

Talvez tais projetos de “modernidade” soem empolgantes a muitos. Mas não partirão de um equívoco? É que, ao contrário do que parece sugerir o vídeo que anuncia as possíveis intervenções urbanas, aquela zona da cidade não está abandonada. O futuro “parque urbano de socalcos” onde talvez alguns imaginem sunsets patrocinados por uma marca de uísque, como aconteceu no jardim das Virtudes, é já hoje uma impressionante aglomeração de dezenas de pequenas hortas comunitárias autogeridas que juntam ali, todos os dias, moradores da zona e estudantes, gente mais nova e mais velha que cultiva naqueles socalcos uma imensa variedade de legumes, frutas, hortaliças e aromáticas. O “ramal abandonado” é, se o olharmos de outra forma, um dos poucos passeios em que podemos ainda apreciar o rio fora das rotas ocupadas pela indústria turística. E os miradouros, se pela palavra entendermos não um pedaço de betão com uma cerca de metal, mas um lugar onde podemos mirar uma paisagem, talvez não precisem de ser “implementados” por uma operação de “requalificação” porque, na verdade, já lá estão.

O mesmo poderia dizer-se das pessoas. A Alameda das Fontainhas é um ponto de encontro e um espaço de liberdade e de convívio para quem não tenha especial vontade do Porto das hamburguerias gourmet e das cervejas artesanais. Não seria melhor não tornar aquele lugar “um polo de elevada atração urbana”, se isso corresponder, como sabemos que aconteceu em tantos outros pontos, a mais um processo de gentrificação, feito para atrair capital e substituir as pessoas que agora habitam os lugares mas que não terão dinheiro para habitá-los depois? Esse processo, aliás, já começou a dar os primeiros passos.

Neste afã de “requalificação”, parece-me haver pelo menos dois problemas. O primeiro é tratar aquele lugar, simplesmente, como estando “ao abandono”, como se aquilo que é ocupado de uma outra forma, refratária ao poder municipal, não fosse também um modo de habitar e de fazer cidade, como se todas as práticas urbanas e culturais, em sentido amplo, não enquadradas e programadas pela autarquia, fossem inexistentes. O segundo, é que esta forma de desatenção pode transformar-se num mecanismo de hostilidade quando de repente parece ter havido o “descobrimento” de um pedaço inexplorado da cidade pronto a ser colonizado pelas classes trendy com mais capital, económico e cultural.

E talvez devêssemos pensar nisto como um problema. A cidade é um ecossistema frágil, que precisa de humanos polinizadores. Um pouco de terra, uma fissura, a vida nasce. Ali, como ervas daninhas indesejadas, há outras lógicas de cidade não mercantil que estão a acontecer. Era importante que as deixassem florescer, em vez de cortá-las, como fazem as roçadeiras municipais que limpam as estradas. Eu quero um Porto em que haja lugar para as floras selvagens da imaginação e para os projetos das pessoas que não pedem licença.

Artigo publicado em expresso.pt a 30 de abril de 2021

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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