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Elogio da Marcha do Orgulho - e do António

Cada um lida com os seus mortos de um jeito próprio. Os meus aparecem-me de noite nos sonhos para me levarem a passear ou para terem longas conversas comigo enquanto o mundo, à nossa volta, descansa. Nós não.

Há um território do sono onde as mais extraordinárias visitas acontecem. Por vezes, os que assim me aparecem vão-se despedindo apenas quando a manhã já desperta, como que a voltarem lentamente à misteriosa obscuridade, esse lugar que habitam quando o dia se instala definitivamente.

Não sei se é isto a memória – ou a saudade. Sei que das pessoas que já perdi se faz muito do que sou. Convivemos todos os dias, de tantas formas, com os nossos mortos. Nos livros que escreveram e nos ajudam a pensar. Nas recordações imaginadas. Nas músicas que gravaram ou que outros gravaram e se fizeram nossas. Nas lutas que travaram e que, cúmplices, nós continuamos a lutar.

Quando o António morreu, dois dias depois, os amigos e as amigas juntaram-se para pintar um mural. Éramos tantos. Junto à “ilha” onde morava, na Lapa, pusemos música alta, dançámos para afastar a tristeza e, sob a luz inquieta daquele dia difícil, a tarde foi um corrupio de pintores improvisados, todos mãos à obra para inscrever na parede momentos nossos e combates partilhados – que ficam, afinal, do que tão intensamente somos. Foi como se fizéssemos daquela morte uma festa dolorosa e um compromisso para o futuro.

Junto ao retrato do António que a Mariana desenhou no muro, o Fernando escreveu laboriosamente uma frase em letras que podem ver-se a metros de distância. Pedimo-la de empréstimo, por sugestão da Catarina, à poeta e ativista norte-americana Audre Lorde, uma mulher negra, filha de imigrantes caribenhos, lésbica, militante socialista, mãe, feminista, uma eterna “outsider” de todos os grupos com pretensão de homogeneidade, uma das que mais cedo articulou um pensamento sobre a interseccionalidade das múltiplas opressões: idade, classe, raça, sexo, orientação sexual, identidade de género...

“Não sou livre enquanto outra pessoa for prisioneira, mesmo que as suas correntes sejam diferentes das minhas”. Era esta a frase – e ainda lá está, pintada na parede. É uma boa forma de condensar num pensamento o modo como o António – e tantos outros e outras com ele – se colocava nos espaços de luta em que participava. Um dos mais importantes de entre eles era a Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto, que acontece amanhã pela 14º vez.

A primeira marcha que aconteceu no Porto foi impulsionada pela reação ao assassinato da Gisberta, em 2006, Imigrante brasileira em Portugal, mulher trans, trabalhadora do sexo, pobre, sem-abrigo, utilizadora de drogas, Gisberta é bem um símbolo da multiplicidade das opressões. Porque era trans - e imigrante –, Gisberta dificilmente arranjaria emprego. Porque era pobre – e trans – Gisberta não tinha casa. Porque era pobre e utilizadora de um certo tipo drogas, à Gisberta barravam a entrada em muitos bares da noite do Porto – inclusive bares gay. Porque era trans – e sem-abrigo – Gisberta foi assassinada e só deram com o seu corpo dias depois.

Talvez por ter nascido com a Gisberta, a Marcha do Orgulho LGBT do Porto nunca foi apenas sobre uma parte da agenda do movimento. Foi sempre sobre a indivisibilidade de todos os direitos humanos. Pobreza, racismo, xenofobia, transfobia, machismo, direito à saúde ou à habitação, tudo se interliga com a agenda LGBT. Assim tem sido a Marcha desde o seu início, mesmo quando tentaram afunilá-la, acantoná-la, fazê-la pequenina e de nicho, mero espaço publicitário ou oportunidade de negócio.

Este ano, a revolta de Stonewall, na origem do movimento LGBT+ nos Estados Unidos, faz 50 anos. A Marcha de Lisboa acabou de fazer 20. Se compararmos com o passado, há muito mais visibilidade. As leis portuguesas deixaram de criminalizar a homossexualidade. Há 15 anos que temos uma referência à orientação sexual na nossa Constituição, o acesso ao casamento deixou de ser só para casais de sexo diferente há quase uma década, em Portugal a orientação sexual deixou de ser critério para adopção. De há um ano para cá, temos uma lei da identidade de género digna desse nome.

Mas olhemos à volta. A discriminação LGBTfóbica – incluindo agressões – está aí, no quotidiano e muito para além da lei. A extrema-direita cresce e banaliza-se o discurso de ódio contra os refugiados, os migrantes, as minorias e os direitos civis que conquistaram. A violência patriarcal está na ordem do dia e a emergência climática ameaça a própria existência do planeta. No Porto, em Lisboa e noutras cidades, a gentrificação deixa um rasto de precariedade e vai expulsando dos centros quem não seja rico.

É neste contexto que as marchas têm crescido, enfrentando o desafio da inclusão das agendas que as interpelam (os feminismos, as lutas estudantis, o movimento negro, as lutas pelo direito à cidade e à habitação) e resistindo ao mesmo tempo a quem, intuindo oportunidades de negócio, gostaria de colonizar os seus símbolos ou de tentar apropriar-se dos seus repertórios de luta para os esvaziar de conteúdo ou para lhes pôr consumo mínimo à porta.

O António é uma das pessoas a quem a Marcha do Porto deve esse duplo movimento de abertura e de resistência. A ele, que era da boémia e da noite, mas sobretudo da dádiva e da rua. A ele, que sabia da importância libertadora das festas e dos bares, mas para quem não seria nunca o dinheiro no bolso de alguém ou a dimensão de um patrocínio a definir o espaço de uma causa, de uma pessoa ou de uma organização. A ele que sabia que não é por pôr uma bandeira arco-íris em cima que o racismo é menos racista, que a exploração é menos exploração, que o colonialismo é menos colonial, que a racionalidade do mercado é outra. A ele, a quem não interessavam as cores de que as correntes se vestiam ou quem aprisionavam – mas sim se eram correntes.

“O Porto não se rende e o orgulho não se vende”. Foi este o lema que a Marcha deste ano escolheu. A mim, soa-me bem: meigamente feroz e vaidosamente sem medo. Como a minha cidade. Como o António.

Artigo publicado em expresso.pt a 5 de julho de 2019

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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