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Eleições Legislativas: O voto útil deu a maioria absoluta ao PS

O voto útil no PS em nome da estabilidade e do medo do regresso da direita levou à esmagadora vitória do PS. A pressão do voto útil, face às últimas sondagens que aproximavam o PSD do poder, levou a que muito eleitorado do esquerda votasse nos socialistas.

O Partido Socialista consegue a quinta maioria absoluta do regime democrático de 1974 à custa do medo do regresso da direita ao poder. Os parceiros da Geringonça (Bloco e PCP) foram penalizados por chumbarem o Orçamento de Estado e a direita racista, do Chega, e a direita liberal, do Iniciativa Liberal, crescem consideravelmente.

Os resultados das eleições legislativas antecipadas em Portugal, realizadas no dia 30 de janeiro, deram a maioria absoluta ao Partido Socialista (PS) de António Costa, que leva seis anos a governar. Uma maioria absoluta que foi amplamente pedida pelo próprio em nome da estabilidade, mas que se viu obrigado a deixar de pedi-la a uma semana das eleições, já que as sondagens mostravam uma aproximação do partido de centro-direita, o PSD.

Os portugueses mostraram nas sondagens que não gostam de maiorias absolutas, mas acabaram por dar uma maioria absoluta a António Costa com medo do regresso da direita.

A quinta maioria absoluta do regime democrático de 1974

Quatro foram sob a liderança do PSD: dois com a Aliança Democrática (AD) de Francisco Sá Carneiro, em 1979 e 1980, e duas com o PSD de Cavaco Silva, em 1987 e 1991.

Desde 1976, só cinco dos 22 governos constitucionais conseguiram ser eleitos com essa maioria, que lhes permitiu ocupar mais da metade dos 230 assentos da Assembleia da República.

Da parte do PS, o resultado almejado pelo atual primeiro-ministro só foi conseguido por José Sócrates em 2005, quando os socialistas elegeram 121 deputados.

António Costa começou a campanha eleitoral pedindo uma maioria absoluta, em nome da estabilidade, depois da rejeição do Orçamento de Estado pelos seus parceiros de Geringonça, Bloco e PCP. A maioria absoluta que sempre desejou.

Costa prontamente se disponibilizou a culpabilizar os seus parceiros pela crise política, enquanto estes argumentavam que o PS sonhava com esta maioria desde 2019 (ano das últimas eleições legislativas em que Costa não quis um acordo escrito, tal como em 2015, e preferiu ir negociando diploma a diploma) e que o Orçamento de Estado para 2022 falhava nas questões importantes para o país: Serviço Nacional de Saúde, leis laborais e Segurança Social.

Quando faltavam uma semana para as eleições, o principal partido da oposição, o PSD, aproximava-se e algumas sondagens davam um empate técnico, o que levou António Costa a mudar de estratégia e abrir-se ao diálogo.

O voto útil no PS em nome da estabilidade e do medo do regresso da direita (que governou no período da troika, entre 2011 e 2015), levou à esmagadora vitória do PS.

Bloco e PCP penalizados

Os parceiros de Geringonça do PS, que levaram António Costa a ser primeiro-ministro em 2015, foram os principais prejudicados pelas eleições antecipadas. O Bloco passou de 19 deputados para 5 e o PCP passou de 12 para 6.

A Geringonça mostrou que só beneficiou um partido e este foi o PS. A pressão do voto útil, face às últimas sondagens que aproximavam o PSD do poder, levou a que muito eleitorado do esquerda votasse nos socialistas, a bipolarização forçada deu-lhes resultado.

O Bloco passou de 19 deputados para 5 e o PCP passou de 12 para 6. O Partido Ecologista Os Verdes, que se candidata em coligação com o PCP, não conseguiu manter a sua representação parlamentar, que era de 2 desde 2019.

A chantagem criada pelo PS, acenando para o regresso da direita também foi eficaz, tão eficaz que o PS ganhou tantos votos, como o PCP e o Bloco perderam (de 2019 para 2022).

A esquerda progressista fica mais frágil e isto acontece ao mesmo tempo em que seria mais necessária. A sua capacidade de intervenção degrada-se num contexto em que o PS não precisa de negociar com ninguém. A esquerda progressista perde, enquanto a direita racista, xenófoba e economicamente liberal se reforça.

De salientar que o Partido Ecologista Os Verdes, que se candidata em coligação com o PCP, não conseguiu manter a sua representação parlamentar, que era de 2 desde 2019.

Há uma transformação na direita

Um dos partidos fundadores da democracia desaparece da Assembleia da República, o CDS.

Chega, partido de direita xenofóba e racista, consegue 12 deputados e coloca-se como a terceira força política do país e a Iniciativa Liberal elege 8, posicionando-se quarto.

A ascensão de partidos que atentam contra a liberdade e contra os pilares mais basilares da democracia é motivo para nos preocupar. O Chega está em ascensão e capta muitos desilusionados de direita, vindos do CDS e do PSD, tal como muito voto de protesto, que acaba por ser o voto mais volátil.

O PSD continua sem encontrar o verdadeiro caminho, depois da governação de Pedro Passos Coelho durante a troika. Durante esta campanha, acreditou-se que a direita poderia voltar ao poder, mas a divisão de votos entre os vários partidos de direita acabou por prejudicar o maior partido da oposição.

Rui Rio, líder do PSD, não conseguiu mobilizar o eleitorado de direita para o voto útil, quando o PSD mais se aproximava do PS nas sondagens, os eleitores mostravam apoio ao Chega e à Iniciativa Liberal. Aconteceu exatamente o oposto do que aconteceu à esquerda.

Deixar nota também para o Livre, que conseguiu manter o seu deputado, e o PAN, que reduziu a sua representação parlamentar, passando de 4 para 1.

Artigo publicado no Interior do Avesso

Sobre o/a autor(a)

Estudante na licenciatura em Estudos Europeus. Dirigente distrital de Viseu do Bloco de Esquerda
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