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Eleger um/a Presidente, escolher políticas

Reduzir as presidenciais a um ranking falacioso e às coreografias dos debates é uma estratégia de esvaziar o debate político de questões essenciais para o país que se jogam (também) nestas eleições. Refiro três.

O que mais abunda por aí são comentários sobre as eleições presidenciais que as reduzem a um ranking tão falacioso como os rankings das escolas. Reduzir as presidenciais a isso e às coreografias dos debates é uma estratégia de esvaziar o debate político de questões essenciais para o país que se jogam (também) nestas eleições. Refiro três.

A primeira é evidentemente a da saúde. Nestas eleições há quem, sob a capa dos grandes consensos, tenha defendido sempre o negócio da saúde, primeiro fazendo constar que vetaria a Lei de Bases da Saúde negociada à esquerda se ela não contemplasse abertura às parcerias público-privado e, já no tempo da pandemia, tudo fazendo para evitar a requisição dos hospitais privados e a sua remuneração a preços de custo. A estas posições se contrapõe quem defende, nestas eleições, um contrato nacional pela saúde que assuma o reforço do SNS, a valorização das carreiras e a promoção da exclusividade dos médicos como um imperativo.

O segundo debate destas eleições é sobre os direitos do trabalho. Há candidatos que, dizendo-se defensores de quem trabalha, apoiem, com mais ou menos afetos, as normas impostas pela Troika que desprotegem os trabalhadores, os precários e os desempregados. A essa posição se contrapõe quem se candidata em nome da recuperação de direitos dos trabalhadores e de um combate coerente contra a precariedade como um imperativo estratégico contra a pobreza e as desigualdades.

A terceira questão em debate nestas eleições presidenciais é a do poder do sistema financeiro. Há quem se candidate carregando consigo o ónus de ter dado publicamente a garantia de que o BES era seguro (já não sei se dando uma nota positiva ou não), de ter concordado com a venda do BANIF e do Novo Banco ou o silêncio face aos encargos imparáveis que os cambalachos do sistema financeiro têm gerado para todos nós. A essa posição contrapõe-se quem defende o controlo estratégico da banca e o apuramento de todas as responsabilidades pela gestão dos bancos, preservando o erário público da sangria sem fim que lhe tem sido irresponsavelmente imposta.

Estas eleições são sobre escolhas de políticas, muito mais que de estilos. O que o país vai ser nos próximos cinco anos vai a votos no dia 24.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 5 de janeiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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