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Ela carrega as bandeiras do futuro

A Marisa reconhece a luta da geração mais precária de sempre, a que vive mais intensamente as conquistas do século XXI que agora estão sob fogo do ultra-conservadorismo.

“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.”

Adélia Prado

Assim ela fez e tornou-se a mulher mais votada de sempre em eleições presidenciais. Em 2016 a Marisa Matias mostrou que não há cargos vedados nem às mulheres, nem aos jovens, nem à esquerda. Em 2021 volta a candidatar-se para dizer que não aceita recuos, que num momento de incerteza é preciso quem saiba carregar bandeiras, alguém que nos faça confiar no futuro.

Joga-se aqui mais do que uma disputa eleitoral.  É fácil olhar para ela e ver a estudante que lutou contra as propinas, a ativista ambiental que lutou contra as lixeiras, a jovem que foi rececionista, serviu à mesa, limpou casas de banho e escadas para ser a primeira licenciada da família, a mulher que nunca se deixou envergonhar.

Talvez por isso não exista nela o paternalismo dos habituais candidatos ao cargo. A Marisa reconhece a luta da geração mais precária de sempre, a que vive mais intensamente as conquistas do século XXI que agora estão sob fogo do ultra-conservadorismo. Duas crises económicas e uma crise climática no tempo de uma juventude é uma espécie de ABC do capitalismo, e se há quem esteja disposto a aderir ao negacionismo e culpar a democracia, também há uma geração que não aceita que lhe hipotequem a liberdade, não aceita recuos.

O processo histórico ditou que estas jovens gerações crescessem numa fenda sísmica e seria irresponsável não discutir com elas um projeto de sociedade. A corrupção não é um problema de ética individual, a defesa do ambiente depende de coisas maiores do que as escolhas de consumo, a precariedade não é sintoma de modernidade, o racismo é estrutural, a homofobia espreita, o machismo mata: isto é uma visão de sociedade.

Responder a um país aflito, como disse Marisa Matias, implica não empurrar para debaixo do tapete as escolhas de futuro. A defesa do Serviço Nacional de Saúde público, universal e tendencialmente gratuito, a defesa da Escola Pública como garante de igualdade não passam de exercícios de retórica na boca de quem sempre alinhou pelo estado mínimo. Responder à crise, sabemos bem, não deixa espaço para agendas escondidas nem posições “mais ou menos a favor do reforço do SNS”, “mais ou menos a favor do reforço do Estado Social”, é uma visão de sociedade.

A Marisa diz ao que vem e fá-lo com verdade: ser uma Presidente de esquerda, atenta ao mundo como só pode estar quem o viu como ela viu, ser uma Presidente do povo, uma força maior para quebrar os bloqueios que Marcelo construiu contra o progresso. Uma presidente que se lembra da vergonha que Marcelo quis impor às mulheres que abortam, que não tem uma vida de cumplicidade com o sistema financeiro, que não sonha com o regresso da direita ao poder.

Numa eleição em que os jovens raramente se sentem representados, a Marisa distingue-se não apenas porque é jovem mas porque tem um projeto de democracia, de progresso, de liberdade e de igualdade diferente do dos outros.

Ela carrega as bandeiras do futuro. Por isso é que a Marisa Matias é uma escolha tão natural.

Artigo publicado no jornal “I” a 7 de janeiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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