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A economia do susto

O regresso à austeridade coloca dois problemas. O primeiro é que a expansão da liquidez pelos bancos centrais não foi aproveitada. O segundo é que a dívida pública se agigantou.

Inquéritos das últimas semanas a gestores de fundos, como o que foi divulgado pelo Bank of America, revelam o esperado: tremem com o risco de aceleração da inflação. Poderia dizer-se que é uma atitude quase racional, dado que, se se confirmar essa expectativa, os juros de referência subirão e os valores dos ativos financeiros cairão, mesmo que isto tenha ainda pouca fundamentação real. Além disso, a economia do susto é o velho normal, dado que o mercado financeiro vive de pânicos, como é conhecido, e assim se multiplicam os riscos. No entanto, o maior problema do pós-confinamento é outro. É a dívida e o que fazer com ela.

Inflação pífia

A subida dos preços é real, se bem que reduzida. As razões são quatro: o valor dos fretes de mercadorias vindas da China triplicou, há um aumento do consumo nos EUA, em alguns sectores há dificuldades de abastecimento e também há especulação comercial para recuperar as margens perdidas, mas o resultado disso é, para já, inflação abaixo de 3%. É ainda de notar que as autoridades monetárias levaram a década passada a cometer sempre o mesmo erro: sobrestimaram a inflação prevista e mantiveram políticas restritivas quando eram necessárias políticas expansionistas. E quando mudaram, por força da crise do euro ou da longa recessão ou agora, pelo fecho da economia com a pandemia, comprometeram-se a voltar às regras anteriores, o que na zona euro se anuncia para o final de 2022.

Esse regresso à austeridade coloca dois problemas. O primeiro é que a expansão da liquidez pelos bancos centrais não foi aproveitada e os seus riscos não foram compensados: com juros a zero, ou seja, esgotando o efeito da política monetária e podendo promover bolhas especulativas, faltava o investimento. Vamos sair deste período com um défice acrescido de investimento. O segundo problema é que a dívida se agigantou.

O monstro da dívida

No final de 2020, a dívida pública na zona euro era de 98% do PIB, mas sete países estavam já acima dos 110%: Portugal, Grécia, Espanha, França, Itália, Bélgica e Chipre. Acresce que uma parte desta dívida está no balanço do BCE, que não sabe o que fazer com ela. A discussão oficial sobre a gestão orçamental é, por isso, da maior importância, dado que com o fim da suspensão da regra do défice em 2023 não se sabe o que vigorará.

Weidmann, do Bundesbank, anunciou que a Alemanha quer o regresso à regra do travão e, pela sua parte, iniciará imediatamente uma consolidação orçamental de 2% do PIB em 2022, o que, só por si, terá um impacto recessivo na zona euro de 0,6%. Tudo dependerá da eleição de setembro, mas não é de esperar que uma aliança verdes-direita ou verdes-social-democratas se desvie desta meta. Os falcões da dívida estão a voltar a pousar nas chancelarias, e nem se sabe se as eleições francesas, em abril de 2022, ou as próximas eleições italianas serão tidas em conta nesta equação. O que é certo é que as propostas conhecidas de alteração das regras orçamentais, como a de Blanchard, que foi diretor do FMI, são ameaçadoras, pois pretendem trocar flexibilidade orçamental por fim da réstia de soberania ao impor a tutela dos tribunais europeus na gestão nacional. Os fantasmas que ameaçam a Europa são dívida a mais, investimento a menos e autoritarismo renascido.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 28 de maio de 221

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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