Ecologia e capitalismo

porJosé Joaquim Ferreira dos Santos

05 de novembro 2023 - 12:45
PARTILHAR

Para realmente contrapor à cultura do capitalismo neoliberal uma cultura alternativa é de todo um paradigma político diferente que necessitamos. As formulações ecossocialistas podem representar um contributo importante nessa alternativa.

As alterações climáticas, com o seu conjunto de violentos fenómenos como secas, aumento de temperatura, ondas de calor, incêndios, furacões, inundações, desaparecimento do gelo das calotes polares e tantos outros, não são um problema do futuro, estão presentes nos nossos dias, com os fenómenos extremos a que temos assistido.

É hoje claro e cientificamente provado, que os erros cometidos pelas chamadas políticas desenvolvimentistas a qualquer preço, constituem uma parte muito importante da eclosão destes fenómenos.

O aquecimento global, resultado da acumulação de CO2 na atmosfera terrestre, causado pela proliferação dos motores de combustão, mas também pela criação intensiva de gado e pelos grandes incêndios florestais, é a causa de graves alterações nas correntes marítimas, do degelo polar e da desertificação, com cada vez mais território tornado inapropriado para a vida humana e para a vida outras espécies.

Há quem procure explicações naturais para as alterações climáticas, essa é a posição dos chamados negacionistas, mas é, principalmente, a ganância do capitalismo a primeira responsável da situação.

Comparar a situação da eclosão de fenómenos extremos e consecutivos, que estamos a enfrentar, com alterações vividas há alguns séculos de secas e arrefecimentos não passa de tentativas de arranjar desculpas e desviar o olhar do principal factor, as actividades humanas abusivas.

Como sempre acontece, o capitalismo procura tirar dividendos até dos crimes ambientais que provoca, criando fórmulas capazes de adaptar a própria crise climática aos interesses especulativos e à sua rentabilização em termos de lucro. Surge assim a magia que é a fraude conhecida por capitalismo verde.

Para responder a este caos instalado torna-se necessário mudar o rumo e desenvolver políticas sustentáveis que representem alternativas fiáveis e credíveis que combatam a falsa teoria engendrada pelos criativos do capitalismo de que há meios para se opor às alterações climáticas, criando mercados para o carbono, automóveis elétricos e outras falácias do género.

Para realmente contrapor à cultura do capitalismo neoliberal uma cultura alternativa é de todo um paradigma político diferente que necessitamos. As formulações ecossocialistas podem representar um contributo importante nessa alternativa, no equilíbrio ecológico, e com os princípios de justiça social para todos.

As respostas do capitalismo verde são um engano porque trata os efeitos e não as causas, continuando com o extrativismo, a poluição, a rapina com vista ao lucro.

Ao contrário do que continua a ser afirmado por alguns ecologistas que ainda parecem acreditar na capacidade regenerativa do capitalismo, não há contradições entre a ecologia e o pensamento socialista marxista. Muitos pensadores marxistas têm refletido sobre destruição da natureza pela ganancia capitalista, teorizando alternativas que necessitam com a máxima urgência de ser testadas.

A defesa do planeta e das diferentes formas de vida que ele comporta não se compadece com os posicionamentos políticos ambíguos daqueles que procuram conciliar a manutenção de um capitalismo predador com pequenos ajustes como seja a defesa dos animais, sem uma visão política mais alargada. Esse posicionamento não passa de mero exercício de retórica, sem bases sustentáveis e sem apoios às realidades sociais. É tomar a nuvem por Juno, e não querer ver o desastre que se aproxima.

O regime capitalista neoliberal, sem rosto e sem um mínimo de responsabilidades sociais ou ecológicas, implica a permanência de políticas extractivistas, de produção intensiva, não racionais e sem ligação com as reais necessidades da população, destinadas a promover lucros à custa da exploração da maioria dos seres humanos, por uma minoria amoral.

Fomos levados a mudar muitos dos nossos comportamentos por campanhas insidiosas, mas muito inteligentes, propagadas pelos meios de comunicação social normais, mas também por meios mais subtis, destinadas a criar falsas necessidades como novos telemóveis, novos automóveis, novas tecnologias mais sofisticadas, mas de utilidade duvidosa, novos regimes alimentares, vestuário e outros, visando aumentar os lucros das multinacionais que os produzem.

Algumas das consequências da acção humana são já irreversíveis, mas ainda vale a pena tentar minorar o aumento dos desvarios, actuando com racionalidade e estudando cuidadosamente as medidas para não cair em excessos que posteriormente podem ser vistos como atitudes folclóricas.

Resta-nos fazer avançar o conhecimento, a ciência e a técnica e promover a sua divulgação pela educação, a par do debate para a construção de um novo paradigma de sociedade, mais equitativa, assente no respeito pela natureza, na justiça social e numa maior responsabilização de todos, por todos os seres vivos. O nome que lhe possamos vir a dar não importa.

José Joaquim Ferreira dos Santos
Sobre o/a autor(a)

José Joaquim Ferreira dos Santos

Reformado. Ativista do Bloco de Esquerda em Matosinhos. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
Termos relacionados: