É você que vai pagar a crise de custo de vida?

porJosé Manuel Pureza

09 de abril 2026 - 21:06
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Uma guerra começada por Trump e Netanyahu à revelia do direito internacional leva à subida em flecha do custo de vida. Dizem-nos agora, tomando isso por garantido, que é quem trabalha todos os dias para sobreviver que vai ter de pagar a fatura. Na verdade, não tem de ser assim.

O preço do cabaz alimentar nunca esteve tão alto e a DECO avisa que o verdadeiro impacto da guerra ainda está para vir. As contas da energia vão subir e o preço dos combustíveis tem aumentado todas as semanas. Três quartos da população tem salário inferior a €1000. Essa esmagadora maioria, que sempre fez contas à vida, vai agora ter de as fazer de maneira mais dramática para acomodar o aumento dos preços em todas as dimensões do dia-a-dia.

Uma guerra começada por Trump e Netanyahu à revelia do direito internacional leva à subida em flecha do custo de vida. Dizem-nos agora, tomando isso por garantido, que é quem trabalha todos os dias para sobreviver que vai ter de pagar a fatura. Na verdade, não tem de ser assim. Há empresas que registaram lucros recorde e que beneficiam extraordinariamente com a guerra. Podem ser elas a pagar.

A Sonae registou vendas recorde de mais de 11 mil milhões de euros já em março deste ano. A Galp, também este mês, contabilizou um aumento de 20% nos lucros e um recorde de 1,15 mil milhões de euros no ano passado. O setor energético e as grandes distribuidoras ainda vão aumentar mais os seus lucros com a guerra. Está na altura de perguntar: é você que vai pagar a crise de custo de vida?

Em sociedades mais justas, quem obtém lucros extraordinários com a crise contribui mais para a combater. É disso - e só disso - que falamos: justiça. O aumento da fatura não pode bater sempre à porta da vida dos mesmos, aqueles que trabalham e que se veem aflitos para chegar ao final do mês.

E isso não é utopia, é bom senso. Na Bélgica, o preço dos combustíveis é regulado. Em França, o mesmo acontece com vários bens essenciais. Em Espanha, por ação direta do Estado, a botija de gás custa metade do que custa em Portugal. Mesmo na Madeira e nos Açores, os preços dos combustíveis estão regulados e são muito mais baixos.

O que falta mesmo é vontade política. Portugal tem um Governo que prefere que as pessoas com baixo rendimento paguem a fatura, em vez das grandes empresas. Proteger os lucros das grandes empresas é a escolha de um Primeiro-Ministro que nos brindou com aquela expressão tão cheia de significado: “a economia está melhor, a vida das pessoas é que não”.

Dito isto, resta repetir a pergunta: é você que vai pagar a crise de custo de vida?

Artigo publicado em 24noticias.sapo.pt a 28 de março de 2026

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda
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