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E se o azar, afinal, for a política?

Os tropeções e engasgos do PS, quando o debate chega às decisões que contam, não são azares. São as opções políticas de fundo.

Quase uma década depois do início da crise financeira na Europa, depois de anos de destruição económica em Portugal, a resposta austeritária tem resultados indesmentíveis: crescimento da dívida pública, perda de soberania, descontrolo do sistema financeiro.

Quem quiser inverter este ciclo tem que responder a estes três problemas: tornar a dívida sustentável, recuperar soberania, controlar a finança. É por isso significativo o azar do Partido Socialista em afirmações recentes sobre estas três matérias.

30 de Janeiro. Pela primeira vez, um governo europeu, o grego, assume a proposta da reestruturação da dívida. Confrontado, António Costa declara que não acompanha a proposta porque não quer “levar com a porta na cara” em Bruxelas. Parece haver contradição entre esta posição e as análises de Costa sobre a dívida pública portuguesa, não é? Costa embrenha-se então numa explicação semântica intrincada sobre a diferença entre “dívida constrangedora” e “dívida insustentável” num país com “crescimento anémico”.

19 de Fevereiro. Dirigindo-se a uma plateia de empresários chineses, António Costa agradece-lhes a ajuda para que o país esteja hoje bem diferente. Costa agradece a quem passou a mandar na eletricidade em Portugal, como se presume que agradeça também a quem hoje manda nos correios ou nos aeroportos (ou como agradecerá a quem vier mandar na TAP, se o Governo levar avante a desgraçada privatização). As declarações provocam desconforto nas hostes socialistas e Costa explica que apenas trata de defender o país perante estrangeiros. A questão da soberania, ou da sua perda com a privatização de setores estratégicos, não merece sequer referência.

14 de Março. Finalmente, o PS parece reconhecer a necessidade de agir sobre o sistema financeiro e tirar lições do colapso do BES. Apresenta a sua proposta, mas... não toca na banca e apenas quer alterar a forma de nomeação do governador do Banco de Portugal. O azar é tanto, que só conseguiu que se discutisse a (falta de) pertinência de uma revisão constitucional, mais ou menos cirúrgica, a poucos meses de eleições. A finança agradece.

Uma alternativa à austeridade exige mais do que o evidente diagnóstico do recuo do PIB, dos salários, do emprego. Exige mais do que os lamentos pelo aumento da pobreza e da desigualdade. Exige a coragem de mudar o que conta.

Os tropeções e engasgos do PS, quando o debate chega às decisões que contam, não são azares. São as opções políticas de fundo. A União Europa autoritária, as privatizações, o privilégio da banca - toda essa obra tem também a assinatura do Partido Socialista. Não é azar. É a política.

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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