A imagem de azedume não convém a ninguém. Menos ainda a atitude azeda. Cavaco Silva, dez anos primeiro-ministro e dez anos Presidente, ou seja, sendo a encarnação da genética do sistema político em Portugal, consegue exibir ao mesmo tempo a imagem e a atitude em todas as circunstâncias, mas mais ainda quando se chega à frente para conduzir um ataque político como o que desencadeou esta semana contra os partidos de esquerda. Poucos dias depois de mais um enxovalho pelo atual Presidente, que vai escolhendo judiciosamente os momentos em que se demarca do seu antecessor, e sempre com o argumento cirúrgico da coerência institucional, Cavaco Silva voltou com estrondo à ribalta política. Fez tudo mal, mas aqui não me cabe interpretar nem a conjuntura da intenção nem sequer a conjura do conteúdo, só me interessam os sinais mais estruturantes que o episódio revela.
A direita já só quer o PSD a arder
O primeiro sinal é que há uma direita profunda, ou histórica, que não reconhece Rui Rio. No caso desta semana, ao expor a sua catilinária perante a elite política e bancária do PSD, Cavaco Silva reduziu o papel do presidente do PSD a um entretenimento secundário, se não insignificante. Houvesse elegância e deixaria o palco a Rio. Mas não há. Só há pressa e precipitação, vale quem elevar a voz e for façanhudo. Disto já não vamos sair: entre o risco de uma vitrina de desespero pela inoperância do PSD, vencido na sua própria ortodoxia do défice e na ambição do “bom aluno”, e a ânsia de o atropelar com movimentos, intrigas, declarações tonitruantes e outras tropelias, esta direita profunda escolhe sacrificar o seu próprio partido. Se assim é, tudo se torna possível. Estão a soltar-se os demónios: há movimentos laranja que teriam há alguns meses medo de repetir Trump e que agora o fazem de peito cheio; há um frenesim de luta pela pole position de 7 de outubro, que envolve mesmo ideias radicais de arranjos refundadores com uma parte do CDS; no meio de tudo isso, empresários e comissários discutem como podem comprar a TVI, alguém trata do que importa.
Entre tudo, a perturbação está aqui: há inimigos e adversários, mas quem ataca o PSD são os seus inimigos, que parecem estar todos dentro do partido, e este nem se opõe aos seus adversários no centro e na esquerda. Se assim continuar, estará a esforçar-se por deixar de ser o segundo partido do sistema político, graças aos seus próprios dirigentes. Como noutros países, a direita profunda passou a achar que tem de destruir o PSD para singrar.
A direita contra a esquerda
O segundo sinal é mais contraditório. Com a sua declaração, Cavaco Silva quer atingir o Bloco e o PCP, não o PS. Despreza o PS, não quis que o Governo de Costa tomasse posse, mas não é com ele que terça armas. É contra os partidos de esquerda. A alegação é que foram “hipócritas” e que o IVA da restauração baixou para tirar dinheiro ao SNS (cujos cortes ele, como Presidente, aceitou, sem hesitar, durante os anos em que foram sendo feitos). Há nisto qualquer coisa de estrondoso, apimentado pela invocação da superioridade ética. Então, o ex-Presidente não se lembra de nenhum “indecoroso” caso caseiro de jobs for the boys? A sério? Duarte Lima, Valentim Loureiro, Isaltino Morais, Oliveira e Costa, BPN e quejandos? As suas maiorias absolutas não têm só história, têm coleções de acusações e cadastros.
Assim, uma explicação para este tiro ao alvo seria simplesmente um descabelado ajuste de contas em que o ex-Presidente esquece tudo o que fez e se zanga com tudo o que se faz. Ora, o que Cavaco Silva parece não perdoar são as circunstâncias em que um acordo inédito impediu a continuidade da forma tradicional de arrumação da política, que seria um acordo ou uma alternância entre o PS e o PSD-CDS. Só que há nisto uma manta de Procusto. Se ele faz fogo sobre a esquerda, parece querer favorecer o PS, o que decerto não deseja, tanto mais que também amesquinha o PSD ao pisar o seu líder; se puxa para o ataque ao Governo, confirma o vigor do acordo que quer denunciar. Ou seja, fica sempre a perder.
Assim, no resultado final, Cavaco Silva saiu mais uma vez da sua reserva para designar inimigos que só lhe podem agradecer. Como diria um filósofo do século passado, se quem se nos opõe nos designa no ataque, isso é uma coisa boa, não é má. De facto, dispensa-se assim a demonstração da importância ou centralidade de quem é apontado. Quanto mais a direita profunda se atirar à esquerda, mais a torna uma referência do debate político. Basta simplesmente que responda com humor.
Artigo publicado no jornal “Expresso” a 6 de abril de 2019