O Governo agendou a discussão parlamentar do pacote laboral no mesmo dia em que milhares de trabalhadores saíram à rua em todo o país para dizer que rejeitam a proposta. Fê-lo apressadamente, mas agora agita-se na comunicação social a possibilidade de baixar à especialidade sem ser votada na generalidade.
Nas últimas semanas, os próximos passos de Luís Montenegro tornaram-se claros. Encostado às cordas por todos os estudos de opinião, avança com a Prestação Social Única e o trabalho social para embaratecer o trabalho e disputar o eleitorado da extrema-direita, agenda a discussão do pacote laboral a mata-cavalos e anuncia a revisão constitucional em acordo com o Chega.
Das duas, uma. Ou fez um acordo com o Chega para viabilizar o pacote laboral e a revisão constitucional, ou conta que o Chega chumbará o pacote laboral. As duas vias servem, na verdade, para afastar o fantasma de Passos Coelho. Ou há acordo e Montenegro é o protagonista da ponte com a extrema-direita, ou não há acordo e coloca a extrema-direita fora do arco “reformista” à direita pelo qual Passos Coelho tanto clama. Ou opera a síntese da direita, ou bloqueia-a.
Tudo isto significa que a aprovação do pacote laboral está dependente dos jogos palacianos das forças e dos protagonistas da direita, e por isso não é possível perceber já se o pacote laboral tem condições para ser aprovado nestas condições.
A pedra no sapato – leia-se, o nosso instrumento de luta -, é a mobilização social contra o pacote laboral. Porque essa mobilização pressiona a extrema-direita e isola Montenegro. Enquadra a discussão na política concreta e não nas geometrias variáveis das direitas. Foi isso que aconteceu a 11 de dezembro e que, pela expressão mediática, parece ter-se confirmado a 3 de junho.
Apesar dos números da greve e do tamanho das manifestações, a soberba de Montenegro é a performance do seu à vontade. Qualquer desfecho afastará os fantasmas que o assombram.
Essa soberba faz-me lembrar um poema de Cesário Verde, de nome Deslumbramentos, onde o sujeito poético se revolta com a soberba do objeto de amor e lhe deixa um aviso: “Mas cuidado, milady, não se afoite, / Que hão de acabar os bárbaros reais; / E os povos humilhados, pela noite, / Para a vingança aguçam os punhais”.
Quer isto dizer: o primeiro-ministro está confiante de ter vencido os jogos palacianos, mas no mundo real a política também existe. É essa mobilização social que tem de derrotar o pacote laboral e passar à ofensiva. E quando o conseguir, é caso para dizer: “Cuidado, Montenegro, não se afoite”.