Na véspera do dia 25 de Abril, data em que assinalamos o aniversário da Revolução que nos libertou da ditadura fascista, cujas correntes amordaçaram o país e a população durante 48 anos, há uma palavra que me vem à cabeça: incerteza. E, em boa verdade, não faltam razões para sentir essa mesma incerteza.
Desde logo, perante o que se passa no mundo, e as respetivas consequências que se fazem sentir por cá. A “aventura” bélica de Donald Trump na Ásia Ocidental, cedendo aos interesses macabros do Estado de Israel, tem provocado, diariamente, centenas de vítimas. Da Palestina ao Líbano, inocentes são mortos e vidas são completamente destruídas por ímpetos imperialistas, enquanto uma guerra contra o Irão é alimentada. Veja-se que o Presidente dos Estados Unidos, à boca cheia, profere ameaças como a de que “uma civilização inteira morrerá esta noite” (publicado a 7 de abril). Como podem estas declarações não causar a revolta de quem as lê? Como pode algo tão monstruoso contar com o apoio do Governo português?
Entre os vários países que permanecem submissos aos interesses americanos encontra-se o nosso, tendo como figuras de proa Luís Montenegro e o seu Governo. Ao garantir a manutenção da utilização das Bases das Lajes, por parte das forças americanas, o primeiro-ministro torna Portugal cúmplice da guerra de Trump. E, ao ocupar este papel, Portugal é um dos responsáveis, ainda que indiretamente, pelo aumento de custo de vida brutal que se faz sentir.
Os desígnios imperialistas assassinos levaram a um aumento de custo de vida sem precedentes: a crise económica que vivemos agravou-se, com impactos enormes para a vida dos portugueses. Além dos custos da habitação, incomportáveis face aos baixos rendimentos, os combustíveis e os produtos do supermercado batem recordes. Os efeitos da disrupção provocada pela guerra na Ásia Ocidental são sentidos em Portugal, sem que o Governo tome as ações necessárias para os mitigar ou cesse a sua participação nesta guerra.
Pelo contrário, Luís Montenegro está mais preocupado em proteger os interesses do patronato. O epítome do desiderato da direita, entre as manobras de diversão que configuram o extremar das narrativas políticas (assumir o discurso de ódio da extrema-direita), está na aprovação do pacote laboral. A proposta de reforma da legislação laboral do Governo não é mais do que um conjunto de medidas de austeridade que tornam legais o que hoje seria considerado ilegal. A prioridade do Governo não é garantir que os rendimentos do trabalho permitem uma vida digna, mas sim que os patrões conseguem acumular cada vez mais lucros, enquanto nós trabalhamos mais horas para os enriquecer.
O aprofundar da desregulação laboral é promovido por quem não irá sofrer com as consequências deste pacote. Não são eles que irão trabalhar mais horas enquanto recebem menos, não são eles que vão ter os seus direitos atacados, não são eles que vão ser despedidos de forma ilícita. Enquanto um pequeno conjunto fatura milhões e enriquece às custas de quem trabalha, a maioria da população está acorrentada à precariedade e à incerteza, sem que vislumbre de estabilidade ou de melhoria de vida.
Tudo isto acontece no ano em que se celebra o cinquentenário da Constituição da República Portuguesa. A cumplicidade na guerra ou o avanço de um pacote laboral que ataca os nossos direitos representa o completo oposto dos valores de Abril, vertidos na Lei Fundamental, e dos quais a realidade política se afasta a olhos vistos. Não posso deixar de recordar que os 50 anos da Constituição são também o assinalar, precisamente na mesma data, dos 50 anos do assassinato do Padre Max e Maria de Lurdes, vítimas de um atentado bombista da extrema-direita.
A democracia consolidou-se ao som das bombas e com vítimas, que tinham nomes e histórias que não podem ser apagadas. Hoje, essa mesma democracia é posta em causa pelos sucessivos ataques às nossas vidas, seja através de medidas de austeridade, eliminação de direitos ou a normalização do discurso de ódio. Afinal, enquanto país, para onde caminhamos?
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 23 de abril de 2026