As duas guerras de Gaza

porJosé Manuel Pureza

06 de outubro 2025 - 12:14
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Melo armou-se em Ventura e proclamou que quem levava comida e comida para Gaza era aliado do Hamas. E, calhando ser ministro da Defesa, pôs em risco, com as incendiárias declarações, o trabalho da diplomacia portuguesa para o retorno dos nossos.

Há uma guerra em Gaza e há uma guerra sobre Gaza.

Em Gaza trava-se a guerra que tem como horizonte o esmagamento dos palestinianos. É uma guerra sem tréguas, que perpetua a vingança absoluta como o sentido da história da região. A guerra que se trava em Gaza é um indicador da crueza do sistema de poder internacional de hoje: genocídio sem entraves, desdém ilimitado pelas considerações mais elementares de humanidade vertidas nas regras do Direito Internacional Humanitário, ridicularização das Nações Unidas e da sua Carta, patrocínio legitimador de tudo isto pela grande potência revisionista da ordem internacional.

A guerra sobre Gaza é a guerra sobre as palavras que se usam e sobre o que elas legitimam. É, por isso, uma guerra de interpretações e de discursos em que se disputa o que está a acontecer e o que se pode e deve fazer. A palavra ‘genocídio’ tem ocupado o centro dessa outra guerra. Qualificar a guerra em Gaza como genocídio tem uma evidente dimensão descritiva da barbárie em curso no território, mas tem também uma importante dimensão prescritiva: essa qualificação vira o imaginário do crime contra a humanidade contra os que têm tido nele um histórico escudo de blindagem e desafia as chancelarias e as opiniões públicas a sair do imobilismo e a agir em defesa das vítimas indefesas. Ao invés, negar a perpetração de genocídio em Gaza é parte de uma estratégia de desqualificação do movimento internacional de solidariedade com a Palestina, acusando-o de ficcionar a realidade e de ser aliado das trevas.

Desde quarta-feira ao fim da tarde – quando a marinha de guerra israelita não se coibiu de intervir, em águas internacionais, contra os barcos da flotilha solidária e de deter/sequestrar quem neles viajava – temos assistido a uma expressão de grande dimensão desta estratégia de desqualificação. O argumentário usado é primário: os ativistas não tinham nenhum propósito humanitário mas sim um objetivo político, sabiam os riscos que corriam e puseram-se a jeito e o Estado português está a fazer tudo o que deve e a mais não é obrigado. Justiça seja feita a Nuno Melo que conseguiu juntar primarismo e trapalhada. Tão primário como o embaixador de Israel na ONU – que qualificou António Guterres como cúmplice do Hamas – Melo armou-se em Ventura e proclamou que quem levava comida e comida para Gaza era aliado do Hamas. E, calhando ser ministro da Defesa, pôs em risco, com as incendiárias declarações, o trabalho da diplomacia portuguesa para o retorno dos nossos.

A frequência destes argumentos no discurso de comentadores e de membros do Governo cria um biombo: quem os usa dispensa-se de tomar posição sobre as questões essenciais: a da legitimidade da ocupação israelita, incluindo a zona de exclusão de navegação no mar adjacente a Gaza, ou a da violação sistemática do Direito Internacional e do Direito Humanitário por aquele país.

Talvez, por isso, se possa transpor o conceito de guerra assimétrica do campo da guerra em Gaza para o campo da guerra sobre Gaza. Em Gaza, a guerra é obscenamente assimétrica, bem o sabemos. Mas também a guerra sobre Gaza é assimétrica: um lado argumenta contra Israel, o outro argumenta só contra o outro lado. A tragédia desta guerra assimétrica é que ela ocorre no tempo da banalização do mal como cultura dominante e do deserto de densidade argumentativa como lei das redes sociais.

Mas há algo que perturba esta assimetria. É a mobilização das ruas contra a prepotência impune do governo de Netanyahu. Quando, por todo o mundo, se junta tanta gente para combater o cinismo de governos e de fazedores de opinião e para repor o debate onde ele tem de estar – a exigência do fim do morticínio em Gaza e do reconhecimento do direito à autodeterminação do povo da Palestina – os pratos da balança ganham novo equilíbrio. Os negadores do genocídio sabem que é assim. Por isso é que desdenham a flotilha. Porque sabem que ela teve esse efeito fundamental: combateu a assimetria da guerra sobre Gaza. Essa foi a sua vitória.

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Coordenador do Bloco de Esquerda
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