Está aqui

Dois governos para duas estratégias

O Governo austríaco tem um programa e uma liderança de direita, o espanhol tem uma orientação de centro com uma aliança à esquerda. Ambas as soluções exprimem o recuo ou a decadência das forças tradicionais que governavam estes países.

Tem havido muita atenção à formação do Governo de Madrid, considerando que a cúpula dos republicanos catalães deve aprovar hoje o acordo com o PSOE e assim viabilizar Sánchez como primeiro-ministro. Mas foi menos notado o acordo interpartidário que permitiu viabilizar o Governo Kurz na Áustria. Cada um deles representa uma configuração coligacionista diferente e estratégias opostas.

Na Áustria, os conservadores do OVP (37,5% nas eleições), que estiveram coligados até maio com a extrema-direita, aliam-se agora ao quarto partido, os Verdes (13,9%). Apesar de o primeiro-ministro ter mantido uma posição muito próxima da do chefe húngaro, Orbán, sobre a questão da imigração, e de os Verdes terem outra abordagem, esta implausível coligação dividirá o poder, deixando aos conservadores as pastas económicas e de segurança, o que pressupõe que não modificará a orientação que prosseguira com a extrema-direita, mas entrega aos Verdes quatro ministérios, o ambiente, a justiça, a cultura e as questões sociais. Será assim o quinto governo europeu em que os Verdes participam (com a Suécia, Finlândia, Lituânia e Luxemburgo), mesmo que os resultados até hoje tenham sido um desapontamento para os seus estrategos.

Em Madrid, o Governo PSOE (29%)-Podemos (14%) deve ganhar hoje os votos suficientes para a investidura, com a garantia da ERC (4%), os republicanos e independentistas catalães, com os quais o PSOE estabeleceu um acordo escrito. O Podemos ficará com uma vice-presidência e provavelmente com quatro ministérios, do trabalho, da ciência, da saúde e da igualdade, que dividirá com o grupo de Ada Collau, a alcaide de Barcelona, e com a Izquierda Unida, que representa a continuidade do Partido Comunista. Também neste caso as pastas económicas e de segurança ficarão nas mãos do partido dominante. Mas, ao contrário do acordo austríaco, o programa assinado entre os dois principais partidos da coligação inclui uma política democrática sobre a imigração e sobre os impostos, além de prometer políticas sociais sobre habitação e outros serviços públicos.

Só conclusões apressadas se atreveriam a antecipar o resultado de qualquer destes governos e das suas estratégias. Os programas e a configuração são evidentemente opostos: o Governo austríaco tem um programa e uma liderança de direita, o espanhol tem uma orientação de centro com uma aliança à esquerda. Os seus contextos são também diferentes: o Governo austríaco convive e colabora com a pressão xenófoba que domina a política centro-europeia, ao passo que o Governo de Madrid está tolhido pelas restrições das regras europeias, que promete tentar renegociar. Em todo o caso, ambas as soluções exprimem o recuo ou a decadência das forças tradicionais que governavam estes países. Pode ser que tenham caído numa armadilha, ou simplesmente que sejam a prova de que o velho já não consegue, mesmo que o novo ainda não saiba o que quer.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 4 de janeiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)