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Do dia do trabalhador ao dia do empresário*

Não há empresas relevantes só de empresários e sem trabalhadores, mas há empresas de grande dimensão que prosperam sem patrão.

O título acima resume todo um programa político, uma agenda ideológica que está a ser implementado desde os anos oitenta e com maior intensidade desde a crise financeira de 2008. Uma agenda de política de direita, ultraliberal, defendida pelos partidos da direita, como seria de esperar, mas também pelos partidos socialistas europeus. Programa que visa concentrar a riqueza e o poder na mão de meia dúzia e empobrecer toda a população.

De acordo com essa ideologia, os trabalhadores são preguiçosos por natureza, em particular os funcionários públicos e só atingem a sua máxima produtividade sob ameaça constante de despedimento e outras formas de coação. Os sindicatos são forças ao serviço de interesses obscuros e nefastos que interessa por isso eliminar. A contratação coletiva também é inimiga do lucro e, portanto, urge suprimi-la e cada trabalhador que negoceie por si o seu contrato e condições de trabalho, numa relação muito desigual com o patrão.

O Estado é ineficiente por natureza e ao oferecer ele próprio serviços públicos, como a saúde ou a educação é um fator de atraso, segundo essa mesma visão. O Estado deve limitar-se a proteger a segurança, a propriedade privada e a liberdade dos investidores. As políticas sociais são ineficientes pois encarecem o fator trabalho e desincentivam o investimento privado e a criação de emprego.

Por outro lado, os patrões, agora ditos empresários ou empreendedores são apresentados como os heróis visionários que promovem o investimento, a inovação e o crescimento. São unicamente eles que criam riqueza.

É uma falácia! São os trabalhadores, é o trabalho quem cria a riqueza. Não há empresas relevantes só de empresários e sem trabalhadores, mas há empresas de grande dimensão que prosperam sem patrão: a Corporacion Mondragon, o maior grupo empresarial do País Basco espanhol é um grupo de cooperativas, dá trabalho a mais de 74.000 pessoas, nasceu nos anos 60 do sec. XX e até ao presente não produziu ainda qualquer milionário. Está presente em 40 países e regista um volume de vendas anual de 14 mil milhões de Euros.

Olhando de perto a realidade na Madeira e no país, as grandes empresas que conhecemos não resultam do génio ou visão dos seus criadores ou gestores. Ou são empresas públicas privatizadas ou empresas que cresceram à conta de negócios com o Estado, fruto de promiscuidades e tráficos de influências várias.

A política de reduzir os custos do trabalho, quer pelo corte de salários, quer indiretamente pela retração do papel do Estado seguida nos últimos anos, não conduz ao crescimento não cria riqueza, mas cria milionários ao mesmo tempo que fez empobrecer a grande maioria da população.

O empreendedorismo é apresentado como a solução mágica para o emprego e o crescimento, como se todos pudesses ser patrões. Os países com maior índice de empreendedorismo, isto é maior percentagem de população que é patrão (nem que seja de si próprio) são o Gana ou o Bangladesh, com mais de 70%, segundo a OCDE. Quanto aos países ricos, França, Alemanha ou EUA, essa percentagem anda à volta dos 10%. Qual o modelo que queremos seguir, o Gana ou a Alemanha?

A fantasia do heroísmo e génio dos empresários é largamente desmentida pela realidade.

(*) O dia do empresário assinala-se na Madeira no dia 20 de Maio

Sobre o/a autor(a)

Coordenador do Bloco de Esquerda / Madeira. Economista, dirigente da Administração Pública.
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