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Diz-me com quem andas

Dos 30 deputados que quiseram alterar o que o Parlamento havia já decidido, sob a capa da cobardia e da absoluta consciência da imoralidade, constam nove deputados do PSD e 21 do PS, o "bloqueio central" no seu pior.

No dia seguinte a Maria de Belém elogiar Almeida Santos como "o maior de todos os socialistas vivos" (obviamente, pela candidata não aceitar o apoio de Mário Soares a Sampaio da Nóvoa, desprezando o papel do ex-presidente na história fundadora do PS), malogradamente, Almeida Santos deixa-nos aos 89 anos. Ontem, quando lhe é assinalada falta de comparência por luto no debate televisivo, Maria de Belém é descoberta na lista de deputados "anónimos" que pediram ao Tribunal Constitucional (TC) a devolução das subvenções vitalícias dos políticos. E assim estamos, na morte sentida e na figurada: a campanha de Maria de Belém morreu.

Acresce que Maria de Belém não esteve numa outra lista. Em 2012, entre os deputados de Esquerda que pediram o chumbo do Orçamento do Estado que tanto agravou os impostos, o seu nome era eclipse. Expedita para solicitar a inconstitucionalidade da retirada de privilégios a políticos, dorme para o seu melhor lado perante as medidas que agravaram o empobrecimento de milhões de portugueses às mãos de Vítor Gaspar e da troika. Dos 30 deputados que quiseram alterar o que o Parlamento havia já decidido, sob a capa da cobardia e da absoluta consciência da imoralidade, constam nove deputados do PSD e 21 do PS, o "bloqueio central" no seu pior. Esse "centrão" que se divide no apoio entre Marcelo, Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa.

Desengane-se quem pensa que Marcelo acredita naquilo que Marcelo diz. E que no seu vazio não há uma agenda política há anos marcada pela mediatização do tacticismo-cascavel. Desenganem-se aqueles que pensam que Sampaio da Nóvoa não tem como apoiantes muitos dos deputados que impuseram o julgamento desta imoralidade ao TC. Desenganem-se aqueles que se enganaram sobre Maria de Belém, para não se enganarem mais. O trajecto curvilíneo para Belém destes candidatos presidenciais é acompanhado de perto por muitos daqueles que fizeram, nos últimos anos, uma guerra civil sem armas no nosso país sob a sombra da meia-legalidade e da impunidade.

Alguma coisa mais haverá a fazer se quisermos evitar que se instale na presidência um mero clone com "upgrade" de mister simpatia. O país nas nossas mãos. Três boas notícias na substituição do chip do autómato. A primeira, diz-nos que o tempo político de Cavaco Silva morreu e que com ele terá que morrer a política poluída de que é ícone, aquela que ajudou a erguer e que sempre premiou. A segunda, diz-nos que Cavaco - mesmo que queira - já não pode ser parte activa no seu grupo ideológico de "extremistas" da finança. A terceira boa notícia diz-nos que são os "radicais" que Cavaco não suporta nem quer ver à frente, aqueles que o apavoram, são esses radicais que hoje falam de equilíbrio e de liberdade.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 20 de janeiro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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