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Dividir para reinar

A estratégia do governo é clara. É preciso encontrar um bode expiatório para afastar as atenções daqueles que são os verdadeiros responsáveis pela crise. Beneficiários do RSI, professores, jovens e desempregados são alguns dos alvos preferidos do governo.

Os portugueses são “piegas”. Os portugueses são preguiçosos, têm falta de “dinamismo” e têm “aversão ao risco”. Os portugueses têm falta de “literacia financeira”.

Estas são algumas das preciosidades com que os governantes portugueses nos têm presenteado ultimamente. Isto quando não estão a aconselhar os jovens e professores a emigrar ou a ameaçar os professores descontentes afirmando que a única solução é os mesmos demitirem-se ou até mesmo a alimentar uma espécie de “racismo contra os pobres”, acusando os beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) de não quererem trabalhar e de pretenderem que os outros financiem a sua “preguiça”.

A estratégia é clara: dividir para reinar.

É preciso afastar as atenções dos portugueses do escândalo BPN, que, até hoje, já sugou ao erário público perto de 5,5 mil milhões de euros, sendo que, só este ano, contou com um reforço de capital, dinheiro dos contribuintes, de 600 milhões de euros, mais uma linha de crédito a zero por cento de juro de 300 milhões. É também preciso fazer esquecer que PSD e CDS recusaram as propostas do Bloco para combater a fuga fiscal e que permanecem impávidos e serenos enquanto assistem à fuga de impostos para a Holanda por parte das maiores empresas portuguesas, como é o caso da Jerónimo Martins.

O executivo do PSD e CDS-PP não quer que o tema de conversa dos portugueses no autocarro seja os largos milhões de euros entregues de mão beijada à Lusoponte, as nomeações (os verdadeiros “tachos”) distribuídas pelo PSD e CDS-PP aos seus amigos, como aconteceu nas Águas de Portugal, os negócios ruinosos das parcerias publico privadas, o financiamento da banca com dinheiro dos contribuintes ou as rendas da energia, com o pagamento de dividendos milionários aos chineses ou aos omanenses da EDP e REN. Não. É preciso evitar que estes assuntos 'venham à baila'.

O aumento exponencial do desemprego também não é resultado do fracasso das políticas de austeridade impostas pelo governo e que põem em causa a recuperação económica do país. Não, que ideia! A culpa é, segundo o primeiro ministro, Pedro Passos Coelho, "da aversão ao risco" por parte dos portugueses e dos jovens licenciados portugueses que preferem "ser trabalhadores por conta de outrem do que empreendedores". É preciso um “maior dinamismo” e uma “maior responsabilidade” por parte dos jovens e da população em geral, defende Pedro Passos Coelho. E é preciso que os portugueses deixem de ser “piegas”, adianta ainda.

Os jovens têm é que “encontrar soluções e não lamentar-se”, avança Carlos Oliveira, Secretário de Estado do Empreendedorismo, lembrando que “não cabe ao Estado criar emprego”. Podem, por exemplo, “sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”, sugere Alexandre Miguel Mestre, Secretário de Estado da Juventude.

Enquanto isto, o governo corta nos salários, pensões, prestações sociais, como o abono de família, subsídio de desemprego, que cada vez abrange menos desempregados, subsídio de doença, bolsas de ação social...

A poupança, assim como o consumo interno, descem drasticamente, condicionando a recuperação económica do país. Culpa de quem? Dos portugueses (pois claro!), a quem falta “literacia financeira”, adianta o ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

E enquanto o governo defende que é necessário aumentar a qualificação dos jovens portugueses, as universidades lá se vão esvaziando mediante a saída daqueles que já não conseguem fazer face às despesa cada vez maiores com que são confrontados.

Mas não devemos falar nisso. Nem pensar.

Podemos, sim, falar daqueles que, segundo o governo, são os verdadeiros privilegiados neste país. Não, desenganem-se. Não é o sistema financeiro, não são os grandes grupos económicos, não são os 'boys' do PSD e CDS-PP. São os funcionários públicos. Os professores, por exemplo. Aqueles a quem o governo impôs reduções salariais, mecanismos administrativos de controlo da progressão e modelos burocráticos de avaliação, congelou o tempo de serviço e impediu o progresso na carreira. Estes ingratos que têm a lata de queixar-se só porque o governo os queria obrigar a deslocarem-se para outro serviço em qualquer local do país, deixando casa, família e tudo mais para trás.

João Almeida, Vice-Presidente do Grupo Parlamentar do CDS-PP, sabe bem responder-lhes: "se as pessoas [funcionários públicos] não estiverem disponíveis têm sempre como alternativa a hipótese de negociarem a sua situação contratual". Ora bem, aí está. O que não se pode, é "pedir aos seus contribuintes para pagarem impostos para terem funcionários públicos que não são precisos e que não estão a prestar o seu serviço", adianta logo João Almeida. O primeiro ministro também tem uma solução: "querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa".

O governo teve que recuar nesta medida, tendo já apresentado uma contra proposta. Ingratos, estes professores!

Bem, podemos sempre eleger também como tema de conversa os “preguiçosos” que recebem o RSI e que funcionam como 'coelho retirado da cartola' para o CDS-PP sempre que este quer desviar as atenções de uma última 'trafulhice' qualquer.

Sim, vamos falar destes párias que “não querem trabalhar” e com quem Mota Soares quer poupar 70 milhões de euros este ano. 39% dos beneficiários, que recebem em média por mês 88 euros, têm idade menor ou igual a 18 anos. Em 2011, já em plena crise económica e social, o governo conseguiu a proeza de reduzir em 20,2% o orçamento destinado à medida que maior impacto tem na redução da pobreza extrema. Sim, sem dúvida, estes indivíduos que, segundo o ministro da Solidariedade e Segurança Social, “recebem uma mesada porque não querem trabalhar”, fazem parte do rol dos maiores culpados pela atual crise.

Também não podemos acreditar na própria Comissão Europeia quando esta, analisando o impacto das medidas de austeridade entre 2009 e Junho de 2011, indica que Portugal é o único país onde as medidas de austeridade têm exigido um esforço financeiro superior aos pobres do que aquele que é pedido aos mais ricos.

O governo quer tomar-nos por parvos. Quer, elegendo os seus bodes expiatórios, branquear as responsabilidades de quem não só sai impune da crise como lucra com ela. Se, para os grandes interesses económicos e financeiros, a crise é uma oportunidade para encher os bolsos, para todos os outros, este é o momento de resgatar a democracia e de exigir verdadeiras mudanças.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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