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Dissonância

Perante a dissonância podemos criar uma verdade nova, uma ideologia nova consonante com a realidade ou...

Dissonância cognitiva! É um conceito utilizado por neurocientistas para descrever uma situação de conflito psicológico na qual um indivíduo se encontra perante duas verdades (individuais) que se anulam, ou quando uma crença, um credo ou ideologia é posta em causa pela realidade factual exterior. O substrato neuronal tem sido estudado e parece inequívoco que os centros cerebrais ligados às emoções estão envolvidos na resolução do conflito. Perante a dissonância podemos criar uma verdade nova, uma ideologia nova consonante com a realidade ou... como acontece frequentemente, ignoramos a realidade e os factos e mantemos o nosso sistema de crenças, a nossa ideologia – por incrível que pareça esta é a solução mais fácil e que mais rapidamente soluciona o conflito, mantendo a coerência interna!

 

Mais incrível ainda é o facto de os evolucionistas afirmarem que viver em dissonância pode mesmo ser uma vantagem evolutiva que ajudou a espécie humana a evoluir em comunidade. Segundo esta teoria, os sistemas de crenças mágicos, como os primórdios das religiões, foram fundamentais no estabelecimento das primeiras comunidades de humanos, fortalecendo a coesão e a cooperação do grupo e permitindo o desenvolvimento da linguagem gramaticalmente complexa. Ora estes sistemas de crenças colidiam muitas vezes com a realidade: nem sempre os rituais sacrificiais traziam melhores anos de colheitas, as rezas não impediam muitas epidemias e a dança da chuva... não traz necessariamente chuva! Como a coesão da vida social é tão importante na sobrevivência individual, era mais proveitoso manter a crença nos rituais da comunidade desacreditados pela realidade, do que racionalmente aceitar a aleatoriedade do clima ou que as doenças são provocadas por agentes naturais e não por castigo divino.

 

Talvez esta seja uma parte da explicação pela qual sabemos que estamos a destruir o planeta e ainda assim contribuímos todos os dias para a degradação da atmosfera, acreditamos que somos pessoas de bem mas regozijamo-nos em provocar o sofrimento e a morte de um touro ou defendemos a igualdade entre todas e todos os seres humanos mas não nos cansamos de falar mal dos ciganos.

 

Explicará isto porque é que a maioria das mulheres norte-americanas votaram num agressor sexual? Porque é que imigrantes portugueses em França apoiam Marine Le Pen? Porque razão existem negros que continuam a defender Donald Trump? Porque existem homossexuais em partidos populistas ou de extrema-direita na Europa?

 

O populismo utiliza múltiplas estratégias para se infiltrar no pensamento hegemónico. Uma das quais é precisamente o questionamento da realidade, a disputa dos factos. Donald Trump consegue negar as alterações climáticas mesmo quando não existem dúvidas nenhumas no meio científico, fazer declarações de amor a Kim Jong-Un poucas semanas depois de ter ameaçado uma guerra nuclear, falar em sucesso económico quando a dívida americana atinge o trilião de dólares. Vários populistas europeus conseguem defender que a Europa está a ser invadida por refugiados muçulmanos, mesmo sabendo que só uma pequena percentagem destes cá chegam, ficando a esmagadora maioria refugiada nos países árabes vizinhos como o Líbano, a Turquia ou a Jordânia. Por cá, fanáticos católicos afirmam a pés juntos que os idosos holandeses fogem para a Alemanha para não serem “eutanasiados” pelo Estado. Quanto maior o volume das mentiras, mais insensíveis se tornam os seus apoiantes aos factos e à realidade e mais eficaz é a capacidade para criar dissonância.

 

Lutar contra o espectro neofascista que o mundo enfrenta hoje não é fácil, não pode ser fácil. Não há favas contadas neste combate que será duro e longo e não podem existir hesitações ou meias medidas. Ainda ontem achávamos que o nazismo era história do século XX e, num piscar de olhos, já aí temos as bases de uma nova onda autoritária e violenta: Trump, o Brexit, Orbán, a Polónia, Duterte, a Áustria, a Alemanha, Salvini... e agora Bolsonaro!

 

Não vale a pena perguntar “como é que é possível, depois de tudo o que vivemos no século passado?” Não é só uma questão de “banalização do mal”. Também não é só um “problema de memória”, porque ninguém se esqueceu de Adolf Hitler. É também um problema de dissonância, criada pelas condições objetivas em que vivemos – se aqueles que se dizem democratas e moderados fazem uma guerra no Iraque com base em provas falsificadas, porque razão é pior o populismo e a sua intoxicação por mentiras? É este o desafio maior: combater o fascismo e os fascistas, sem nos esquecermos de combater com a mesma garra as ideias fascistas que pulverizam todo o resto do espectro político.

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Médico
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