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Dissecação de uma greve

A greve dos médicos é o exemplo que demonstra que não há inevitabilidades, não há becos sem saída, não há só austeridade depois da dívida.

A greve dos médicos na semana passada foi um sucesso. Adesão superior a 95% dos profissionais. Blocos operatórios fechados quase na totalidade. Centenas de centros de saúde sem um único médico a trabalhar. Uma manifestação com 5000 médicos, vindos de todos os pontos do país, envergando as suas batas brancas em frente ao ministério, ocupando um quarteirão inteiro da avenida João Crisóstomo.

Mas o sucesso maior da greve veio no dia seguinte. Sindicatos e ministério voltaram a sentar-se à mesa das negociações. No final o ministério emitiu um documento público prometendo resolver as grandes questões que despoletaram esta greve. Promessa de abertura de concursos públicos para contratação de médicos, 2000 nos próximos 2 anos. Promessa de desbloqueio da progressão na carreira. Promessas de recurso a trabalho temporário só quando as vagas dos concursos não forem preenchidas. Promessa de atualização das grelhas salariais, com proposta em cima da mesa já neste mês de Julho. No espaço de uma semana, os médicos passaram de promessas de trabalho desqualificado, precário, sem carreira e ao mais baixo custo do mercado para promessas de estabilidade, carreira na função pública e concursos legais e transparentes. O que mudou numa semana? A GREVE! Sabemos que promessas são sempre promessas. Mas vitórias também são sempre vitórias. E esta greve é uma grande vitória dos profissionais contra uma política austeritária cujo fim era a destruição do SNS.

De onde vem o sucesso desta greve?

1. Greve Unitária. Esta greve resultou de um esforço amplo entre diferentes estruturas. A convocação partiu dos dois sindicatos, sempre com o apoio incondicional da Ordem dos Médicos. As sensibilidades e o espectro político-social que estas organizações incluem são o mais abrangente possível. E ainda assim foi possível coordenar tanta gente tão diferente em redor de uma causa tão justa. Sem sectarismo, sem oportunismo, sem burocratização – apenas o SNS no centro de tudo! Mas não ficou por aqui. Ao longo da semana foram várias as cartas de solidariedade que nos foram enviadas, não só de outros sectores profissionais, como também de muitos movimentos de utentes, sindicatos estrangeiros, ordens dos médicos estrangeiras e até de uma faculdade de medicina brasileira. A razão é simples: o mundo reconhece a qualidade do nosso Serviço Nacional de Saúde, a dedicação dos seus profissionais e os sucessos incríveis que foram conquistados ao longo das últimas décadas, em termos de indicadores de saúde. O SNS é um exemplo para o mundo inteiro.

2. Greve compreendida. Durante semanas os media decidiram difundir casos isolados de má prática médica e de burla ao Estado por alguns profissionais. Foram múltiplos os comentadores políticos que escreveram e disseram as maiores barbaridades em público, tudo para desmobilizar a greve. Todas elas infundadas, repletas de mentiras, que só poderiam ser proferidas por quem nada sabe sobre o SNS. O próprio ministro veio desesperadamente prometer mundos e fundos aos médicos, nos últimos dias, sem no entanto apresentar nada de concreto. Nada disto resultou. Nos dias da greve bastava ver os diretos realizados a partir dos hospitais e centros de saúde e observar tantos e tantos utentes a manifestar a sua solidariedade com os profissionais e a sua causa. Também isto resultou de um trabalho imenso de sindicatos e ordem, de informação à população, de produção de materiais de esclarecimento de contacto direto com os utentes procurando não só justificar a greve como também envolvê-los na ação.

3. Greve justa. A causa da greve era justa, senão mesmo nobre. O que estava em causa era a defesa do melhor serviço público que o país produziu na sua história. O melhor garante de democracia em Portugal, que permite aos mais ricos e aos mais pobres terem o melhor tratamento possível, em condições de igualdade. E essa justeza foi percebida por todos, profissionais e utentes, gente de direita, gente de esquerda, ricos e pobres, novos e velhos.

Quem sai derrotado desta greve?

1. A austeridade. A política da bancarrota, da Troika e do ministro Paulo Macedo que queriam impor, a todo o custo, a precarização do trabalho médico. Criando uma nova relação laboral, através de um intermediário, que desresponsabilizasse o Estado da tutela do trabalho dos profissionais e que desresponsabilizasse o médico do seu dever de servir os cidadãos. Destruindo um vínculo forte e necessário para garantir a melhor relação médico-doente possível. Ameaçando os médicos com o desemprego, a incerteza de um futuro, o afastamento da formação contínua e a responsabilização das consequências do seu trabalho. Esta greve venceu a precariedade e isso é não só um fator de orgulho para todos mas também um sinal de que uma vitória contra austeridade pode abrir caminho a outras vitórias, em outros sectores.

2. O governo da Troika. Passos Coelho tremeu na semana da greve dos médicos. Percebeu que uma parte importante da sua frágil base social de apoio estava no outro lado: no lado do emprego, do desenvolvimento, dos serviços públicos, da democracia. A greve dos médicos ajudou a abrir uma porta de esperança e a demonstrar que nenhuma luta está perdida à partida. Que é possível dobrar os senhores da Troika e derrotar, em múltiplas frentes, o seu rolo compressor que pretende destruir a nossa democracia. A greve dos médicos é o exemplo que demonstra que não há inevitabilidades, não há becos sem saída, não há só austeridade depois da dívida.

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