A Direita Perdeu o Norte – e a Vergonha Também

porBruna Oliveira Lemos

21 de julho 2025 - 16:53
PARTILHAR

Num país governado exclusivamente pela direita, os que não têm poder sairão mais prejudicados. São eles os trabalhadores. As mulheres. Os idosos. Os precários. As minorias. Os doentes. Os pobres. Os invisíveis que todos se esquecem. A extrema-direita quer apagar qualquer vestígio de justiça social.

A direita que se diz democrática precisa de abrir os olhos. Se não for para defender os outros, que seja para se proteger a si própria. Porque quem brinca com o fogo acaba engolido por ele. Reforçar a esquerda agora não é proteger um partido. É proteger direitos. Pessoas. A democracia. É garantir que o futuro não é construído à base do medo, mas da dignidade.

Desde as últimas eleições legislativas, tem-se assistido, com inquietação crescente, à forma como a direita portuguesa, dita moderada, festejou a queda da esquerda com a mesma euforia com que devia ter lamentado a ascensão da extrema-direita. Mais do que um sinal de mudança política, temos assistido a um desfile de pura ignorância democrática e um brinde desastroso à desinformação.

Sou de esquerda. Sem vergonha e com plena consciência. Porém, não creio que a esquerda deva governar sozinha, sem contraditório. A democracia vive do equilíbrio entre forças distintas. Só com esse equilíbrio há debate, há escrutínio, há progresso plural. O problema começa quando essa mesma direita, em vez de se afirmar pelos seus princípios, se deixa arrastar, de forma natural, pela lógica e discurso da extrema-direita. Sem vergonha. E, pior ainda, com algum entusiasmo.

Recentemente, PSD e CDS apresentaram uma proposta vergonhosa: revogar a lei que reconhece e combate a violência obstétrica em Portugal. Esta lei, proposta e aprovada pela esquerda, foi construída com base em testemunhos, denúncias e evidência científica. Protege grávidas, puérperas e mulheres em situações de vulnerabilidade clínica.

Já se esperava — pelo menos quem entende de estratégia política — que a segunda força política fizesse uma jogada puramente estratégica. E assim foi. Absteve-se. E, por ter tantos deputados, ajudou a travar essa revogação. Com isto, sem a vergonha que já lhe conhecemos, apropriou-se politicamente da sua manutenção, como se fosse obra sua. Vangloriou-se, como se a lei fosse mérito seu. Como se a esquerda, que a propôs, defendeu e votou para a manter, não tivesse sequer existido.

Ver apoiantes da direita a fazer "like" em publicações de André Ventura a vangloriar-se por leis que ele nem sequer defende é revelador. Da ignorância. Da conveniência. Ou de ambas. A linha que separa estas direitas, a cada dia, torna-se mais invisível. E é isso que a extrema-direita quer: ocupar o espaço político todo. Não partilhar. Não negociar. Governar sozinha.

A extrema-direita tem levado os seus vizinhos para onde quer — e eles vão, sem resistência, como fantoches soltos, que não entendem que o Chega não quer parcerias, nem alianças. Não quer partilhar o poder, nem negociar. Quer ocupar todo o espaço político, sozinho. Quer governar como um ditador: sem contrapesos, sem vozes divergentes, sem oposição. A esquerda, neste momento, não faz parte das contas do Chega. O alvo é claro: a AD e a IL. É com eles que compete. E, no entanto, vemos estes “moderados”, vaidosos e distraídos, a virar-se contra a esquerda, sem notar que já foram promovidos a peões no jogo de alguém que nunca teve intenção de partilhar o tabuleiro.

O que custa aceitar é ver tantos jovens, filhos de operários, netos de trabalhadores rurais ou fabris, engrossarem fileiras de discursos que desprezam sindicatos, atacam direitos laborais, desregulam a saúde e a educação, ridicularizam as mulheres e os seus direitos. Defendem os ricos, mas esquecem-se de olhar para dentro de casa. E esperam o quê? Que isso mude com governos de direita?

Sabem como chegaram aqui? Quem lhes garantiu educação pública, salário mínimo, subsídio de desemprego, licença de maternidade, acesso ao SNS, direito à greve? Não foi a direita. Nunca foi. E isto não é uma opinião. É história. Está escrito. Estuda-se. Compara-se. Lê-se.

Não se exige um país com um só lado político. Mas também não é permissível um país que confunda liberdade com selvajaria, nem patriotismo com egoísmo. Não apelo ao ódio pela direita, nem ao seu silêncio. Quero, sim, que reencontre a sua bússola moral e política. Que não esqueça que, sem esquerda, não há equilíbrio. E sem equilíbrio, não há justiça.

Se querem derrotar a esquerda, estudem primeiro. Talvez descubram que foi a esquerda que vos salvou, tantas vezes, de não terem nada. Por isso, camaradas, agora, mais do que nunca, é urgente reforçar a esquerda.

Porque, num país governado exclusivamente pela direita, os que não têm poder sairão mais prejudicados. São eles os trabalhadores. As mulheres. Os idosos. Os precários. As minorias. Os doentes. Os pobres. Os invisíveis que todos se esquecem.

A extrema-direita quer apagar qualquer vestígio de justiça social. E, para isso, usa todos os meios — inclusive apoiar pontualmente propostas progressistas — como forma de desgastar a direita tradicional e aparecer como força “razoável”. Não caiam nesta emboscada. É uma jogada política. Fria. Calculada. E eficaz. Na dúvida? É na esquerda que reside a esperança.

Bruna Oliveira Lemos
Sobre o/a autor(a)

Bruna Oliveira Lemos

Natural de Guimarães. Professora de português.
Termos relacionados: