A direita não vai governar para sempre

porAdriano Campos

14 de dezembro 2025 - 20:51
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Uma maioria, um governo, um presidente. A direita tem tudo e vai tentar ainda mais. Vai durar algum tempo, mas não eternamente.

Um governo. Já conhecemos o plano de uma política de choque, com ataques na habitação, nos direitos laborais, no Ensino Superior, na escola pública, na imigração e na política fiscal. Luís Montenegro e os seus ministros querem um ajuste de contas. Ficaram uma década fora do poder e têm compromissos com as suas clientelas. Ao contrário dos anteriores governos de direita e à boleia da avareza orçamental de António Costa, Montenegro aposta tudo na promessa de rendimentos mais altos, enquanto prepara o país sonhado pela direita em tudo o resto.

Uma maioria. Esta política de rolo compressor conta com uma muleta, a Iniciativa Liberal, e um parceiro sombra, o Chega. Este trisal da política portuguesa tudo faz para encenar arrufos e zangas em público, para logo sacralizar uma aliança de facto, debaixo de um teto comum, no ataque a quem trabalha e vive em Portugal. Mas esta casa da direita unida conta também com um repousa-pés, chama-se Partido Socialista e garante o conforto do governo minoritário. Montenegro hegemonizou o parlamento e submeteu muito mais de dois terços dos deputados. Nesta nova política, aprova o orçamento com o PS, a lei da nacionalidade com o Chega e põe a IL a servir de guarda avançada na defesa do pacote laboral.

Um presidente. Não sabemos ainda se teremos uma segunda volta entre o candidato da extrema-direita e a declinação lusa de um macronismo com barbas, ou entre este último e a encarnação laranja do regime. André Ventura na segunda volta não é o mesmo que fora dela, mas nem Marques Mendes nem o Almirante irão inverter o ciclo. Num sistema que se conforma à nova couraça do alarmismo belicista, do oportunismo xenófobo e do parasitismo económico, não será na presidência que teremos um contraponto com a união das direitas.

Teremos de esperar, mas não vai durar para sempre. E temos que preparar o caminho.

Desgastar o governo. A greve geral é o exemplo de como é possível juntar forças à esquerda e superar as diferenças. Este fulgor de unitarismo ajudou a desgastar o governo no tema do pacote laboral, que se tornou central na política das últimas semanas. É importante abrir novos capítulos nesta luta. Mas há outras brechas. Cada dia em que Ana Paula Martins continua como ministra da saúde é uma vitória para Montenegro. Este é também um governo de promessas que não pode cumprir, seja na habitação, seja no aumento de rendimentos. Eles vão falhar.

Combater uma maioria. Fim do leque salarial no IRC, nova lei da nacionalidade, a selva do alojamento local, adesão ao alarmismo belicista e um alinhamento quase total nos novos executivos municipais. O Chega bem pode gritar contra o orçamento do Estado e André Ventura fazer todos os contorcionismos no tema do pacote laboral, mas não há Conselho de Ministros em que não paire o seu espectro. A IL vai pelo mesmo caminho. Denunciar a união de facto das direitas é uma necessidade, identificar a submissão do PS, uma constatação. Esta maioria também se combate com imagens e emoções. Se eles têm o 25 de Novembro, nós temos o 25 de Abril e o 8 de Março. Se eles querem a revisão constitucional, nós queremos os leques salariais e o teto às rendas. Se eles nos atiram com a Venezuela e com a Coreia do Norte, nós rejeitamos a ligação e denunciamos os trumpismos, os cúmplices do sionismo e da tirania Saudita.

Ir à luta e criar uma referência nas Presidenciais. Há três marcas que a candidatura da Catarina Martins já deixou nesta campanha presidencial. É a única que procurou a convergência de uma candidatura unitária. No tempo das direitas, mais nenhum candidato à esquerda de António José Seguro pode reivindicar essa marca. É a única candidatura que tem um discurso claro de rejeição ao alarmismo belicista e militarista e não titubeia na denúncia dos imperialismos, seja o norte-americano, russo ou chinês. É a candidatura mais eficaz a denunciar o aumento do custo de vida e a desmontar o ataque contido no pacote laboral. Nestes e noutros temas, é uma candidatura que cria uma referência que perdurará nos próximos anos. O voto na Catarina é uma garantia. Sabemos de onde veio, sabemos onde está, sabemos que contaremos com ela no futuro.

Vivemos o tempo das direitas. Preparemo-nos. Não vai durar para sempre.

Adriano Campos
Sobre o/a autor(a)

Adriano Campos

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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