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A dimensão microbiológica e microscópica da crise climática

Bactérias, vírus, parasitas ou os vetores destes seres microbiológicos, adaptam-se com enorme sucesso às alterações do clima. O sucesso destes seres significa um problema para nós.

As alterações climáticas produzem os seus efeitos de forma bem visível. A redução da plataforma de gelo da Antártida, a acidificação dos oceanos, o recorde de temperaturas registado que provoca ondas de calor mais frequentes e mais intensas, ou aumento de inundações noutras regiões do planeta, são tudo exemplos macroscópicos e visíveis da crise climática.

Mas também existe uma dimensão microscópica que não deve ser ignorada. Bactérias, vírus, parasitas ou os vetores destes seres microbiológicos, adaptam-se com enorme sucesso às alterações do clima. O sucesso destes seres significa um problema para nós.

Os ciclos de transmissão de doenças vetoriais são normalmente complexos, envolvendo o agente infecioso, o agente vetor (normalmente um mosquito) e as populações humanas. As alterações climáticas criam as condições necessárias para os mosquitos com capacidade de serem agentes de transmissão, se estabelecerem na Europa. Havendo mosquitos com esta capacidade, é só uma questão de tempo para haver casos locais deste tipo de doenças. O caso da febre no Nilo Ocidental é um bom exemplo de uma doença onde o aumento de casos acompanha as alterações climáticas. Mais chocante, mas não inesperado, França reportou este ano 65 casos de Dengue por transmissão local, na região do mediterrâneo e Pirenéus orientais.

A cólera é outra doença que tem feito o seu regresso. De uma média de 20 países afetados anualmente desde 2016, este ano já ocorreram surtos em 30 países. Incluindo em países que já não registavam a doença há 10 ou mesmo 30 anos, como Haiti no primeiro caso ou Líbano no segundo. A deterioração das condições sociais e a escassez de vacinas é um dos determinantes que alimenta este regresso, mas não é o único.

A bactéria, que é responsável por cerca de 143 mil óbitos anuais a nível mundial, vive naturalmente em águas marítimas de certas regiões do globo. Aumenta a sua taxa de reprodução com o aumento da temperatura da superfície da água. Uma maior quantidade de bactérias de cólera na orla marítima, significa que é maior a probabilidade de interação com as populações humanas, a maioria das vezes por consumo de marisco ou pescado. Se juntarmos comunidades sem acesso universal a água potável ou saneamento básico, temos a receita perfeita para o aumento de surtos desta terrível doença.

Não pretendo ser exaustivo na descrição das dinâmicas clima-saúde, mas é importante dar um terceiro exemplo da dimensão microbiológica das alterações climáticas. Nos últimos anos, a doença de Lyme tem apresentado um aumento das taxas de incidência. Trata-se de uma doença transmitida pela picada de uma carraça infetada pela bactéria Borrelia burgdorferi. A carraça atua como vetor, adquirindo a bactéria ao alimentar-se de roedores, que são os seus reservatórios naturais.

As alterações climáticas contribuem para aumentar a população de roedores, que por sua vez induz um aumento na população de carraças. Mais vetores contaminados significa maiores probabilidades de interação com humanos. No caso desta doença, e as que dependem da interação roedores-vetor, as alterações climáticas também contribuem de uma segunda forma: ao aumentar a área geográfica onde tanto reservatório como vetor conseguem sobreviver. De facto, na Europa Central, o aumento de casos tem chegado a latitudes e altitudes onde nunca tinha chegado na sua história.

A Lei Europeia do Clima, que entrou em vigor em julho 2021, aponta o ano de 2050 como objetivo para os estados-membros atingirem a neutralidade carbónica, com uma redução das emissões de gases com efeito de estufa de 55%, em relação às emissões de 1990, esperada já em 2030. Se a interseção entre a saúde e o ambiente for bem planeada, é possível produzir sinergias que beneficiam ambas dimensões, dos quais a redução da poluição atmosférica ou a promoção da atividade física, são os exemplos mais óbvios.

Mas o planeamento das medidas ambientais e a sua ligação com a saúde, não podem ficar apenas focadas neste paradigma. É necessário encarar a vertente microbiológica, pois as doenças aproveitam as fragilidades sociais que lhes oferecemos. Precisamos de um programa ambicioso de saúde pública, que perceba não só quais são as principais ameaças microbiológicas para os residentes em Portugal, como quais são os grupos mais vulneráveis.

Após o diagnóstico, é importante implementar e avaliar medidas. A literatura diz-nos que as medidas podem ser de três formas: alterar comportamentos, como utilizar roupa de manga comprida em regiões mais afetadas por mosquitos; de construir ou melhorar infraestrutura, como melhorar e expandir a rede de saneamento básico; ou institucionais, como fornecer repelente para insetos ou adotar vacinas para novas doenças. Sem esquecer a vigilância epidemiológica, que deve ser de âmbito multidisciplinar.

Esta proposta tem limitações, e é preciso reconhecê-las para melhor lhes dar resposta. Por um lado, não é fácil isolar individualmente o contributo das alterações climáticas na progressão de uma determinada doença, por outro lado, avaliar o real impacto das medidas hoje adotadas na prevenção da doença de amanhã, é igualmente um desafio considerável. Mas sabemos que a opção de nada fazer é inaceitável, com enormes custos na saúde de todos nós. É preciso, de forma urgente, juntar epidemiologistas e outros profissionais de saúde, cientistas climáticos e sociais, sem esquecer especialistas em comunicação, e trabalhar em conjunto num programa que nos prepare para a dimensão microbiológica das alterações climáticas.

Artigo publicado em publico.pt a 16 de novembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro especialista em saúde infantil e mestre em saúde pública.
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